Contaminação, custos de limpeza exorbitantes e cultura de segredo de Estado: legado da corrida nuclear deixa problemas por resolver ainda hoje

Desenvolvimento das armas nucleares trouxe problemas a vários níveis

Francisco Laranjeira

O filme de Christopher Nolan, “Oppenheimer”, concentrou uma nova atenção nos legados do Projeto Manhattan – o programa da II Guerra Mundial para desenvolver armas nucleares. De acordo com William J. Kinsella, professor emérito de Comunicação, da North Carolina State University, nos Estados Unidos, o projeto gerou uma trindade de legados interconectados. Iniciou uma corrida armamentista global que ameaça a sobrevivência da humanidade e do planeta como o conhecemos. Também levou a danos generalizados à saúde pública e ao meio ambiente devido à produção e teste de armas nucleares. E gerou uma cultura de sigilo governamental com consequências políticas preocupantes.

O autor lembrou Hanford, cidade americana menos conhecida do que Los Alamos, no Novo México, onde os cientistas projetaram as primeiras armas atómicas, mas crucial para o Projeto Manhattan. Lá, uma enorme instalação industrial secreta produziu o combustível de plutónio para o teste Trinity, a 16 de julho de 1945, e a bomba que incinerou Nagasaki algumas semanas depois.

Mais tarde, os trabalhadores de Hanford produziram a maior parte do plutónio usado no arsenal nuclear dos Estados Unidos durante a Guerra Fria. No processo, Hanford tornou-se um dos lugares mais contaminados da Terra, com os custos totais de limpeza a chegar aos 640 mil milhões de dólares: o trabalho não estará concluído nas próximas décadas, se é que alguma vez ficará.

Vítimas de testes nucleares

A produção e os testes de armas nucleares prejudicaram a saúde pública e o meio ambiente de várias maneiras. Um estudo de julho último revelou que a precipitação do teste nuclear Trinity atingiu 46 estados dos EUA e partes do Canadá e do México. Dezenas de famílias que viviam perto do local – muitas delas hispânicas ou indígenas – foram expostas à contaminação radioativa sem saber. Até agora, não foram incluídas no programa federal de compensações.

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Os maiores testes acima do solo dos EUA, juntamente com os testes conduzidos debaixo d’água, ocorreram nas ilhas do Pacífico. Enquanto isso, a União Soviética e outras nações conduziam os seus próprios programas de testes. Globalmente, até 2017, as nações com armas nucleares explodiram 528 armas acima do solo ou debaixo d’água e outras 1.528 no subsolo.

Solo e água poluídos

A produção de armas nucleares também expôs muitas pessoas, comunidades e ecossistemas à poluição radiológica e química tóxica. Aqui, Hanford oferece lições preocupantes. A partir de 1944, os trabalhadores irradiaram combustível de urânio em reatores e depois dissolveram-no em ácido para extrair o seu conteúdo de plutónio. Os nove reatores de Hanford, localizados ao longo do rio Columbia para fornecer uma fonte de água de arrefecimento, descarregaram água contaminada com produtos químicos radioativos e perigosos no rio até 1987, quando foi desligado o último reator em operação.

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Os resíduos foram armazenados em tanques subterrâneos projetados para durar 25 anos – 68 anos depois da construção do primeiro tanque, essa solução permanece indefinida. O local abriga detritos radioativos que vão desde o lixo médico a reatores de propulsão de submarinos desativados e partes do reator que derreteu parcialmente em Three Mile Island, na Pensilvânia, em 1979. Os defensores de uma limpeza completa de Hanford alertaram que o local se poderá tornar uma “zona de sacrifício nacional”, um lugar abandonado em nome da segurança nacional.

Cultura de sigilo

Como mostra o filme “Oppenheimer”, o Governo encobriu as atividades de armas nucleares desde o início. Claramente, a ciência e a tecnologia dessas armas têm um potencial perigoso e requerem proteção cuidadosa. Aqui, novamente, Hanford fornece um exemplo.

O combustível do reator de Hanford por vezes era reprocessado antes que os seus isótopos altamente radioativos tivessem tempo de decair. Nas décadas de 1940 e 1950, foram libertados intencionalmente gases tóxicos no ar, contaminando quintas e pastagens na direção do vento. Ao rastrear as emissões deliberadas de Hanford, os cientistas aprenderam melhor como detetar e avaliar os testes nucleares soviéticos.

Em meados da década de 1980, os moradores locais começaram a desconfiar de um aparente excesso de doenças e mortes na sua comunidade. Inicialmente, o sigilo estrito – reforçado pela dependência económica da região em relação a Hanford – dificultou a obtenção de informações por parte dos cidadãos preocupados.

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