Por Helena Freitas, Country Lead da Sanofi Portugal
No Dia Mundial da Saúde, a nossa reflexão coletiva não deve limitar-se‑ a gerir os desafios do presente, mas sim a desenhar e construir, de forma deliberada, o futuro que queremos para o nosso sistema de saúde. Portugal tem hoje uma oportunidade histórica para edificar um ecossistema mais inteligente, mais resiliente e mais sustentável, mas, acima de tudo, verdadeiramente centrado nas necessidades das pessoas. A base desta transformação já está criada diariamente, nos hospitais, centros de saúde e dispositivos digitais, onde são produzidos dados em quantidade e qualidade. O essencial agora é perguntar como estamos — ou não — a transformar esses dados em valor para as pessoas.
Num debate recente promovido pelo Conselho Consultivo do Prémio Inovação em Saúde, os especialistas foram unânimes ao identificar o mesmo problema: o país tem um imenso património de dados em saúde, mas continua longe de o capitalizar em eficiência e sustentabilidade. Esta é, provavelmente, uma das maiores barreiras à modernização do setor. O défice não reside na tecnologia disponível, mas na ausência de uma arquitetura clara de decisão, num modelo de governação robusto e em mecanismos de interoperabilidade que assegurem que a informação circula de forma segura e útil. Sem esta base, permanecemos fragmentados e impedidos de transformar um ativo existente em verdadeiro valor para o sistema.
Superar esta fragmentação exige também repensar os modelos de colaboração entre o setor público e a indústria. A evidência de vida real gerada a partir da população portuguesa é um recurso inestimável — não apenas para demonstrar o valor clínico das terapêuticas no nosso contexto específico, mas para fundamentar decisões de financiamento, otimizar protocolos e orientar políticas públicas com base em dados concretos. É neste espírito que acreditamos em parcerias baseadas em resultados reais e em modelos de risco partilhado, onde o sucesso se mede pelo impacto efetivo na vida das pessoas e não apenas pela introdução de uma solução no mercado. Só assim conseguiremos garantir que a inovação chega a todos os cidadãos, independentemente da sua condição socioeconómica ou localização geográfica, construindo um sistema verdadeiramente equitativo.
O impacto desta transformação avalia-se, acima de tudo, na qualidade de vida das pessoas — e não apenas nos indicadores ou relatórios que produzimos. Quando os dados são ativados de forma eficaz, tornam-se ferramentas estratégicas: permitem antecipar surtos epidemiológicos e ajustar recursos antes da pressão assistencial; otimizam a gestão de camas e reduzem tempos de espera; personalizam decisões clínicas, ajustando terapêuticas à distância para doentes crónicos; e devolvem tempo e qualidade de vida aos cidadãos. A transição digital da saúde não é um salto tecnológico: é um imperativo humano.
Nenhuma instituição, pública ou privada, tem, isoladamente, a capacidade de liderar esta mudança estrutural. A saúde do futuro só existe se trabalharmos juntos, articulando o rigor da academia, a vanguarda tecnológica, o conhecimento do terreno dos profissionais e a capacidade da indústria de transformar ciência em soluções reais. Foi com esta visão colaborativa que nasceu o Prémio Inovação em Saúde – Todos pela Sustentabilidade, uma iniciativa conjunta da Sanofi Portugal, da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e da NTT DATA Portugal. Este prémio pretende ser mais do que um reconhecimento: ambiciona ser um catalisador de inovação aberta, aproximando quem investiga, quem implementa e quem decide.
A edição de 2026 lança um desafio ambicioso ao ecossistema: procuramos projetos que gerem sustentabilidade nas suas quatro dimensões — social, económica, ambiental e digital — contribuindo para um sistema de saúde mais inteligente, mais equitativo e preparado para o futuro. Queremos soluções que otimizem o funcionamento global do sistema, promovam equidade no acesso independentemente da geografia e demonstrem como a evidência reforça a decisão clínica, de gestão e de políticas públicas.
Mais do que distinguir iniciativas, esta edição pretende acelerar a passagem de pilotos a políticas estruturantes. Portugal precisa de soluções escaláveis, replicáveis e com impacto mensurável na eficiência do sistema, na redução de desperdício, na sustentabilidade de recursos e na melhoria dos resultados em saúde. Neste Dia Mundial da Saúde, reafirmamos o nosso compromisso com o mote definido pela Organização Mundial da Saúde: “Juntos pela saúde. Apoie a ciência.” Na era digital, perseguir os milagres da ciência exige mais do que desenvolver terapêuticas inovadoras: exige sistemas inteligentes que comunicam entre si, aprendem, evoluem e colocam o cidadão no centro.
O futuro da saúde não se adivinha — constrói-se. E constrói-se em conjunto. Portugal tem os dados, tem o conhecimento e tem o talento. Falta apenas ativar esta capacidade para transformar informação em valor real para cada cidadão.




