Congresso do CDS põe hoje coligação com o PSD à prova: continuidade de Nuno Melo enfrenta crítica interna

Nuno Melo, que lidera o CDS desde 2022 e é atualmente ministro da Defesa Nacional, apresenta-se como candidato da continuidade

Executive Digest

O CDS-PP realiza este fim de semana, em Alcobaça, o seu 32º Congresso, num momento em que o partido está de regresso ao Governo e ao Parlamento, mas também confrontado com dúvidas internas sobre o seu peso político dentro da Aliança Democrática. O congresso vai eleger os novos órgãos nacionais e coloca frente a frente dois candidatos à liderança: o atual presidente, Nuno Melo, e o antigo deputado Nuno Correia da Silva.

Nuno Melo, que lidera o CDS desde 2022 e é atualmente ministro da Defesa Nacional, apresenta-se como candidato da continuidade. A sua moção, intitulada “Tempo de futuro”, procura consolidar o caminho iniciado depois da saída do partido da Assembleia da República, em 2022, e da posterior recuperação de influência através da coligação com o PSD. Para o recandidato, o CDS deve agora “ganhar músculo”, reforçar estruturas locais e preparar-se para futuros ciclos eleitorais sem pôr em causa a estratégia que devolveu o partido ao poder.

A defesa da AD é o ponto central da candidatura de Nuno Melo. Em entrevista ao Diário de Notícias, o líder centrista rejeitou a ideia de que o partido esteja diluído na coligação e avisou que não será pela sua mão que serão criadas condições para devolver o poder ao PS ou abrir espaço a outros partidos à direita. “Precisamos de quem ajude a AD a combater os nossos adversários, e não de quem ajude os nossos adversários a combater a AD”, afirmou.

Do outro lado está Nuno Correia da Silva, antigo deputado e conselheiro nacional do CDS, que se apresenta com a moção “Liberdade em movimento”. A sua candidatura parte de uma crítica direta ao atual rumo do partido: o CDS, defende, precisa de se afirmar mais, recuperar fronteiras políticas próprias e evitar uma excessiva dependência da coligação com o PSD. Em declarações à Lusa, disse que não se nota que o CDS esteja a exercer influência suficiente no Governo e que o partido não deve “sacrificar as ideias para ir para a coligação”.

A tensão interna não se resume aos dois candidatos. A Juventude Popular leva ao congresso uma moção que defende um projeto político próprio e a possibilidade de o CDS concorrer sozinho a eleições legislativas. A estrutura liderada por Catarina Marinho critica a perda de nitidez política do partido, considerando que o CDS se tornou “excessivamente diluído” na coligação e incapaz, em vários momentos, de afirmar uma voz própria junto do eleitorado.

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A participação da Juventude Popular tornou-se, aliás, um dos temas sensíveis na véspera do congresso. Foi apresentado um pedido de impugnação da lista de delegados da JP, e Nuno Correia da Silva afirmou à Renascença que, se os jovens centristas ficarem fora do congresso, também não participará, por considerar que estaria em causa a legitimidade do processo. Nuno Melo evitou comentar em detalhe a disputa interna da JP e disse esperar que os jovens populares resolvam as divergências.

Além das moções de Nuno Melo, Nuno Correia da Silva e da Juventude Popular, o congresso terá ainda uma quarta moção global, intitulada “Um partido com futuro”, assinada por Hugo Gonçalves, vogal da comissão política, que não se candidata à liderança. Estão também previstas 10 moções setoriais sobre temas como educação, saúde, habitação, jogos sociais e de fortuna ou azar, participação de pessoas com deficiência na política, floresta, revisão constitucional e Europa.

O congresso acontece num contexto paradoxal para o CDS. Por um lado, o partido regressou ao Parlamento, voltou ao Governo da República e integra também soluções de poder nas regiões autónomas e em várias autarquias. Por outro, continua com uma representação parlamentar reduzida e enfrenta críticas internas sobre a visibilidade das suas bandeiras dentro da AD.

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Nuno Melo rejeita essa leitura e insiste que houve um “antes e depois” de 2024, quando a coligação com o PSD permitiu ao CDS recuperar relevância institucional. Na entrevista ao ‘DN’, o líder centrista sublinhou que o partido saiu de uma situação de “desastre” depois de 2022, sem deputados, sem subvenção parlamentar e com dificuldades financeiras, para voltar a ser parte de uma solução de Governo.

Para responder às limitações de uma liderança acumulada com funções governativas, Nuno Melo admite propor alterações internas. Entre elas está a criação de coordenações executivas em áreas como políticas sociais, soberania, economia, novas tecnologias, inteligência artificial, modernização administrativa e implantação local do partido. A ideia, explicou, não é criar um “Governo-sombra”, mas um “Governo-parceiro” que produza trabalho político e dê apoio ao grupo parlamentar e aos membros do Executivo.

O congresso de Alcobaça será, por isso, mais do que uma disputa formal pela liderança. Será um teste à estratégia que tem guiado o CDS desde o regresso à AD: continuar como parceiro estável do PSD, tentando influenciar por dentro, ou reforçar uma voz própria que evite a perceção de diluição. Nuno Melo chega como favorito e candidato da continuidade; Nuno Correia da Silva procura transformar o desconforto interno em alternativa política. O resultado definirá até que ponto o CDS quer consolidar a coligação ou redesenhar o seu espaço próprio dentro da direita portuguesa.

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