Confederações patronais criticam atraso do financiamento às empresas

Em declarações à Executive Digest, líderes das Confederações patronais explicam que os atrasos nas análises das linhas de crédito são as principais reclamações dos empresários que procuram ajuda para a crise provocada pela pandemia.

De acordo com o Instituto Nacional de Estatística, uma micro empresa tem um custo médio mensal de 11.700 euros; uma pequena empresa de 141 mil euros, uma média de 965 mil e uma grande empresa de 10,4 milhões de euros. No tecido empresarial português, 99,9% do total de empresas são pequenas e médias empresas, que atualmente estão a tentar salvar a tesouraria: como adiar contratações e investimentos, cancelar contratos ou racionalizar stocks. Para fazer face à crise económica causada pelo coronavírus, o Governo duplicou o valor das linhas de crédito a conceder às empresas, passando de um montante global de 3 mil milhões de euros para 6,2 mil milhões. O apoio a conceder pelo Governo às empresas inclui quatro linhas de crédito, uma das quais é remodelada para passar a abranger não apenas as 90 Classificações de Atividade Económica (CAE) que até agora contemplava, mas centenas de outras atividades que estavam fora dos apoios. Passam a ser abrangidas atividades que vão desde a agricultura, construção, indústria do papel ou serviços.

No entanto, os atrasos nas análises das linhas de crédito são as principais reclamações dos empresários que procuram ajuda para salvar as suas empresas. António Saraiva, da Confederação Empresarial de Portugal (CIP) indicou que estão usados «pouco mais de mil milhões de euros dos 6,2 mil milhões de euros [que a linha] ainda tem disponível», referindo-se ao instrumento de apoio às empresas lançado pelo Governo para combater os impactos da pandemia de covid-19 – estes dados são actualizados diariamente. «Esta metodologia, esta dificuldade de acesso, e toda a burocracia é que justificarão o pouco montante que está contratualizado. Mas esperamos ultrapassar a fase de experiência e que estes mil milhões possam ser ampliados. Ficámos nós próprios, organizações de representação privada, de avaliar junto da banca e da SPGM o que ainda podemos fazer para desbloquear mais rapidamente esta situação», afirmou esta semana aos jornalistas após uma reunião com o primeiro-ministro António Costa e o ministro de Estado e da Economia, Pedro Siza Vieira. Em declarações à Executive Digest, António Saraiva condena «o enorme atraso no apoio à tesouraria das empresas».

A CIP defende também a criação de um fundo de capitalização de emergência de três mil milhões de euros para empresas, através de fundos de capital de risco, face à crise da pandemia Covid-19. A medida, a que a CIP chama de «bazuca portuguesa», faz parte de um conjunto de propostas que a confederação levou à reunião da Concertação Social. No documento, já divulgado por vários órgãos de comunicação social, a CIP propõe a «criação de um fundo de fundos (Fundo de Emergência), na órbita da IFD [Instituição Financeira de Desenvolvimento], com 3.000 milhões disponíveis para capitalização de empresas através dos fundos de capital de risco».

Maior transparência

Por outro lado, o presidente da Confederação Portuguesa das Micro, Pequenas e Médias Empresas (CPPME), Jorge Pisco, afirma à Executive Digest que «os micro, pequenos e médios empresários merecem mais respeito por parte do poder». «O Governo permitiu o adiamento do pagamento da segurança social, IVA e impostos em geral, mas adiar significa que vai ter de se pagar daqui a uns meses. Como é que se vai fazer esse pagamento se, neste momento, não se está a faturar?», questiona. Jorge Pisco lembrou que, de acordo com os relatos dos empresários que chegam à Confederação desde o início da pandemia, as linhas de crédito bancárias não chegaram à generalidade das pequenas e médias empresas, quer pela «excessiva burocracia associada aos processos, quer pela exigência de garantias bancárias».

O responsável lamentou também que o Governo não tenha ainda disponibilizado números e dados sobre as empresas que acederam às linhas de crédito criadas para fazer face à pandemia. «As linhas de crédito esgotaram-se. Mas com quem? Quem foram as empresas?».

SPGM

A presidente da Sociedade Portuguesa de Garantia Mútua (SPGM), Beatriz Freitas, disse no parlamento, no dia 12 de maio, que faltavam aprovar perto de mil milhões de euros de garantias do Estado aos apoios às empresas no âmbito da pandemia de covid-19, tendo já sido aprovados mais de 5.000 milhões de euros. Numa audição na Comissão de Orçamento e Finanças da Assembleia da República, Beatriz Freitas afirmou ainda não ter ainda dados disponíveis sobre todos os processos para apresentar aos deputados, mas disse que na primeira linha de crédito a taxa de aprovação foi de 94%, porque decorreu «um longo período de tempo em que as candidaturas foram entrando e sendo analisadas».

A presidente da SPGM referiu depois que a Sociedade teve «em dois dias o trabalho de dois meses» devido aos processos para apoio às empresas no âmbito da pandemia de covid-19, e que em dado momento foram recebidas 17 mil candidaturas em cinco horas.

A banca também está a ser criticada pela demora em disponibilizar as linhas de crédito com garantias de Estado. Empresas e Governo são algumas das vozes críticas. Segundo noticia o ECO, citando fontes do sector, «os bancos socorrem-se do prazo legal máximo de 30 dias que dispõem para aprovar as operações de financiamento».

Aumentar o plafond

À Executive Digest, João Vieira Lopes, presidente da Confederação do Comércio e Serviços de Portugal (CCP) afirmou que o Governo cometeu vários erros nos apoios porque «as primeiras linhas abrangiam só 20% da economia e essas linhas nem foram totalmente utilizadas«. As segundas linhas, no entanto, abrangiam 80% da economia com 6,2 mil milhões de euros mas «que na prática só estiveram na banca a seguir à Páscoa».

«O Governo fez umas linhas iniciais de três mil milhões de euros só para o setor do turismo e para alguns setores da indústria, que representavam mais ou menos 20% do PIB. Os outros setores que representavam 80% ficaram fora. Contávamos que tivessem chegado mais cedo e tivessem dado alguma tesouraria às empresas, o que poderia ter resolvido o problema dos salários. Isso não sucedeu», acrescentou.

A CCP defende que é melhor aumentar o plafond da linha de 6,2 mil milhões de euros para dez mil milhões euros ou mesmo para os 13 mil milhões de euros. «Bruxelas deu um plafond de 13 mil milhões de euros. As linhas de seis mil milhões de euros já foram ultrapassadas. Neste momento, anda entre os nove e os dez mil milhões de euros o crédito requerido».

Linhas específicas:

A Linha de Apoio à Economia COVID-19 (com uma dotação global de 6,2 mil milhões de euros) prevê as seguintes quatro linhas específicas:

  • COVID-19: Apoio à Atividade Económica – no valor de € 4,5 mil milhões.
  • COVID-19: Apoio a Empresas do Turismo – no valor de € 900 milhões.
  • COVID-19: Apoio a Empresas da Restauração e similares – no valor de € 600 milhões.
  • COVID-19: Apoio a Agências de Viagem, Animação Turística, Organizadores de eventos e similares – no valor de € 200 milhões.

 

Ler Mais
pub

Artigos relacionados
Comentários
Loading...