Conde Cara de Lixo: quem é o candidato satírico que está a agitar a política britânica?

Nigel Farage queria transformar uma eleição suplementar em Clacton num teste de confiança popular. Pode acabar a disputar votos com um homem que usa uma lata do lixo na cabeça

Francisco Laranjeira

Nigel Farage queria transformar uma eleição suplementar em Clacton num teste de confiança popular. Pode acabar a disputar votos com um homem que usa uma lata do lixo na cabeça, diz ser um guerreiro intergaláctico e já se tornou uma das figuras mais bizarras — e reconhecíveis — da política britânica.

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Chama-se Conde Cara de Lixo, ou Count Binface no original, e é o alter ego do argumentista e comediante Jon Harvey. Segundo o ’20 Minutos’, a sua entrada em cena tornou-se provável depois de Farage, líder do Reform UK, anunciar que vai renunciar ao mandato de deputado por Clacton para voltar a candidatar-se à mesma circunscrição.

Farage justificou a decisão com a vontade de se submeter ao julgamento dos eleitores, numa altura em que enfrenta escrutínio sobre o financiamento da sua campanha. Em causa estão alegadas doações não declaradas, incluindo uma de cinco milhões de libras atribuída ao bilionário das criptomoedas Christopher Harborne, bem como novas informações sobre financiamento de funcionários, segurança e habitação. Farage nega qualquer irregularidade e fala numa ofensiva do “establishment”.

Os seus adversários veem a decisão de convocar uma eleição suplementar de forma bem diferente. Para críticos do líder do Reform UK, trata-se de uma manobra para desviar atenções e ganhar tempo, já que a investigação parlamentar fica suspensa durante o período eleitoral.

A situação tornou-se ainda mais invulgar quando os principais partidos britânicos decidiram ficar de fora. Trabalhistas, Conservadores, Liberais Democratas, Verdes e Restore Britain anunciaram que não apresentarão candidatos em Clacton, por considerarem que a eleição suplementar é um “circo” político criado para beneficiar Farage.

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Foi nesse vazio que surgiu o Conde Cara de Lixo. A personagem apresenta-se como um “guerreiro intergaláctico” e líder dos Recyclons do planeta Sigma IX. A imagem é difícil de confundir: fato preto e cinzento, capa prateada e um capacete em forma de lata do lixo a cobrir a cabeça.

A carreira política satírica de Jon Harvey começou em 2017, quando concorreu contra Theresa May sob o nome Lord Buckethead. Mais tarde, depois de uma disputa relacionada com direitos de autor, abandonou essa identidade e criou o Conde Cara de Lixo. Desde então, enfrentou Boris Johnson, Rishi Sunak e Sadiq Khan em diferentes eleições.

A personagem ganhou maior projeção nas eleições para a Câmara de Londres. Em 2021, obteve 92.896 votos e ficou em nono lugar entre 20 candidatos. Em 2024, voltou a candidatar-se e recebeu 24.260 votos, destacando depois ter ultrapassado o candidato do partido de extrema-direita Britain First.

Agora, Clacton pode dar-lhe o maior palco até hoje. Após o anúncio de Farage, o Conde Cara de Lixo publicou nas redes sociais: “Que comecem os jogos, Nige!” Noutra publicação, escreveu “Estou a caminho, Clacton”, acompanhado de uma imagem inspirada no Bat-Sinal, mas com a sua própria silhueta projetada no céu.

O candidato satírico também tentou posicionar-se como uma espécie de candidato de unidade. “Trabalhistas, Conservadores, Liberais Democratas e Verdes: exijo que se retirem em Clacton”, declarou. Prometeu ainda construir “pelo menos uma casa popular” e aproveitou o slogan de Farage sobre “o povo contra o establishment” para se apresentar como alternativa. Questionado pela BBC sobre a sua principal vantagem eleitoral, respondeu: “Eu não sou Nigel Farage.”

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A piada parece ter encontrado terreno fértil. Uma sondagem da YouGov citada nos textos indica que um em cada três adultos britânicos, 33%, preferiria ver o Conde Cara de Lixo vencer a eleição suplementar em Clacton. Apenas 21% disseram preferir a reeleição de Farage, enquanto 74% defenderam que o comissário parlamentar de padrões deve investigar o líder do Reform UK.

O fenómeno encaixa numa longa tradição britânica de candidatos satíricos, de Screaming Lord Sutch ao Monster Raving Loony Party. Mas o Conde Cara de Lixo distingue-se por ter transformado a paródia política numa marca reconhecível em eleições nacionais, autárquicas e mediáticas. O lema no seu site é “Make Earth Great Again”, uma provocação evidente ao slogan de Donald Trump.

As suas propostas mantêm o tom absurdo: trazer de volta o Ceefax, tornar os croissants mais baratos, “nacionalizar Adele” ou recrutar para serviço obrigatório quem ouve música alta sem auscultadores nos transportes públicos. A personagem diz ter chegado à Terra em 2017 para lutar por “justiça, lasers, Lovejoy, croissants acessíveis e o regresso do Ceefax”.

Por trás da lata está Jon Harvey, argumentista com carreira em programas como “Have I Got News for You”, “The Revolution Will Be Televised” e “The Thick of It”. A sua relação com a política satírica também tem uma dimensão pessoal. Harvey contou que a personagem surgiu, em parte, como forma excêntrica de manter vivo o espírito do irmão Dan, que morreu inesperadamente em 2015.

Apesar do lado cómico, a candidatura de Conde Cara de Lixo toca num ponto mais sério: o desgaste de parte do eleitorado com a política tradicional. Se Farage quer apresentar-se como vítima do establishment, os seus críticos veem ironia no facto de poder enfrentar uma personagem que se assume como paródia total do espetáculo político.

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Mesmo que vencesse, a entrada do Conde Cara de Lixo no Parlamento britânico não seria simples. As regras da Câmara dos Comuns exigem vestuário adequado e impedem os deputados de cobrir o rosto quando intervêm. O capacete em forma de lata do lixo, marca essencial da personagem, teria provavelmente de ficar à porta.

Ainda assim, a imagem já está criada: Nigel Farage, um dos políticos mais eficazes a transformar a política britânica em teatro, pode ter de disputar uma eleição com um candidato que assume literalmente o papel de bobo intergaláctico. Em Clacton, a política britânica pode voltar a produzir uma daquelas cenas que levam o resto do mundo a perguntar se está tudo bem no Reino Unido.

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