Compradores de automóveis mudam preferências: cinco tendências que estão a redefinir o setor

Indústria automóvel global está a atravessar uma mudança estrutural profunda, marcada pelo avanço das marcas chinesas, pela crescente aceitação dos veículos elétricos, pela quebra na lealdade às marcas, pela evolução da condução autónoma e pela procura crescente de experiências digitais

Automonitor
Dezembro 17, 2025
11:30

A indústria automóvel global está a atravessar uma mudança estrutural profunda, marcada pelo avanço das marcas chinesas, pela crescente aceitação dos veículos elétricos, pela quebra na lealdade às marcas, pela evolução da condução autónoma e pela procura crescente de experiências digitais.

Estas são algumas das conclusões do estudo “What Car Buyers Want: A Global Guide for Automotive OEMs”, realizado pela Boston Consulting Group (BCG), que analisou as preferências de mais de 9.000 consumidores em dez países.

O recente relatório revela que para os fabricantes deste setor, historicamente sujeito a surpresas e mudanças profundas, os próximos cinco anos serão decisivos para manter relevância e competitividade num panorama que se tornou mais fragmentado, mais digital e menos previsível.

Nesse sentido, a BCG identifica cinco tendências estruturais que irão moldar o comportamento de compra nos próximos anos, evidenciando um mercado mais exigente, mais conectado e menos ancorado nas escolhas tradicionais.

Mais consumidores abertos à compra de veículos chineses, em particular nos mercados emergentes e na Europa

O poder de influência dos OEMs (fabricantes de equipamento original) chineses está a aumentar rapidamente, em parte devido aos preços competitivos viabilizados pela tecnologia avançada dos BEVs (veículos elétricos a bateria). Entre 10% e 20% dos consumidores europeus afirma considerar adquirir um veículo chinês, um valor muito acima da atual quota média de 4% destes fabricantes na UE, o que indica um espaço significativo para crescimento. Em mercados como o Brasil, essa abertura chega aos 36%.

Na China, 85% dos consumidores mostra-se agora mais recetivo a optar por marcas nacionais, que representam já 69% do mercado. Por outro lado, os EUA continuam a ser um caso isolado, com apenas 7% dos inquiridos a admitir que pode vir a comprar um veículo chinês.

Transição para BEVs avança devagar, mas de forma cada vez mais firme

Os consumidores tendem a manter o tipo de motor do veículo que possuem atualmente. O relatório evidencia que:

– 71% dos atuais condutores de BEVs pretende comprar novamente um elétrico, um indicador de elevada satisfação e compromisso a longo prazo;
– em contrapartida, apenas 50% dos condutores de veículos com um sistema de propulsão diferente (não BEV) planeia manter o tipo de motor na próxima compra.

A motivação varia por região:

De modo geral, as preocupações ambientais continuam a ser um fator chave;
– Na Europa, o fator dominante são os custos e poupanças;
– Nos EUA e na China, o impulso vem da tecnologia e das funcionalidades avançadas.

Ainda assim, persistem reservas, associadas a mitos persistentes sobre autonomia, velocidade de carregamento e custo inicial, sobretudo na Europa e nos EUA onde 24% e 28% respetivamente afirma que nunca irá trocar para um BEV.

Fidelidade à marca está a diminuir, tendência liderada pelos consumidores mais jovens

Os fabricantes bem estabelecidos não podem contar com a fidelidade dos seus clientes. Nos EUA e Europa, cerca de 40% dos consumidores planeia comprar novamente a mesma marca, com as gerações mais jovens a atingir os 21%. Na China, este fenómeno é ainda mais pronunciado, com apenas cerca de 10% dos consumidores a tencionar repetir a marca, o que reflete o dinamismo e a competitividade extrema deste mercado.

A queda de fidelidade é transversal às regiões, mas é mais acentuada entre os consumidores jovens, que demonstram maior abertura a novas marcas, novas tecnologias e novos modelos de compra.

Condutores estão a ficar rendidos às tecnologias de condução autónoma, mas o nível de confiança varia consoante região

A perceção sobre a condução autónoma está a evoluir rapidamente:

– 79% dos utilizadores de veículos com funcionalidades autónomas consideram-nas úteis;
– Entre quem nunca as utilizou, 45% reconhecem o seu valor potencial;
– A autonomia total é particularmente polarizadora: mais de 60% aceitariam viajar num táxi totalmente autónomo na China, mas na Europa e nos EUA a aceitação é substancialmente menor (~30%), refletindo maior apreensão.

A digitalização tornou-se decisiva na experiência de compra e utilização

A transformação digital chegou definitivamente ao setor automóvel e molda desde a decisão de compra até à utilização diária:

– 31% dos consumidores admitem comprar o próximo veículo totalmente online, sem ver fisicamente o carro. Entre os mais jovens, esta percentagem sobe para 44%;
– Os consumidores valorizam fortemente o acesso a ecossistemas digitais e um leque de opções (Apple, Android e sistemas proprietários);
– A maioria dos consumidores exige atualizações over-the-air (OTA), indicando que funcionalidades digitais contínuas são agora um fator crítico de escolha.

“Estamos a assistir a uma mudança estrutural no setor automóvel: os consumidores estão a redefinir as suas prioridades, a lealdade está a enfraquecer, as marcas chinesas estão a ganhar protagonismo e os veículos elétricos estão a consolidar a sua ascensão. Os OEMs que conseguirem antecipar estas tendências, investir em tecnologia e criar experiências de cliente diferenciadoras serão os que irão liderar o próximo ciclo de crescimento”, afirma Carlos Elavai, Managing Director & Partner da BCG.

Com a previsão de que grandes mudanças vão ocorrer no setor nos próximos cinco anos, o estudo recomenda que as OEMs encontrem formas de corresponder às necessidades e expetativas dos futuros compradores de veículos que vão optar pelas marcas que oferecem aquilo que procuram. Para isso, terão que: adaptar as suas estratégias regionais; reforçar capacidades digitais; desenvolver ofertas BEV acessíveis e tecnologicamente avançadas; modernizar os pontos de contacto com o consumidor; e reposicionar a marca num mercado onde a fidelidade já não é garantida.

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