Como garantir uma estratégia de segurança 360º num mundo onde tudo está ligado?

Opinião de Afonso Freitas, Business Development Principal Manager Iberia da Wireless Logic

Executive Digest

Por Afonso Freitas, Business Development Principal Manager Iberia da Wireless Logic

A transformação digital deixou de ser uma promessa para se tornar o modelo operativo das empresas. No centro desta mudança está a Internet das Coisas (IoT), que liga o mundo físico ao digital e abre caminho a ganhos relevantes de eficiência, automação e criação de novos modelos de negócio. Mas esta evolução tem um lado menos visível e cada vez mais determinante: quanto maior a conectividade, maior a superfície de ataque disponível para o cibercrime.

No ecossistema IoT, essa exposição cresce de forma silenciosa, muitas vezes fora do perímetro tradicional de controlo das organizações. Os números ajudam a dimensionar o problema. Estima-se que tenham ocorrido mais de 1.500 milhões de ataques a dispositivos IoT num único semestre, enquanto a maioria das empresas continua a identificar a segurança como o principal obstáculo à adoção destas tecnologias em escala.

O impacto, porém, vai muito além da tecnologia. Um incidente de cibersegurança pode interromper operações críticas, gerar custos significativos e, sobretudo, comprometer algo mais difícil de recuperar do que qualquer sistema: a confiança. É por isso que a pergunta já não é se as organizações devem reforçar a sua segurança, mas como o fazer de forma estrutural. E a resposta passa inevitavelmente por abandonar abordagens reativas e evoluir para um modelo integrado de segurança 360º, assente em três pilares: proteger, detetar e responder.

A proteção continua a ser a base, mas já não pode ser entendida como um conjunto isolado de medidas. Redes seguras, comunicação encriptada, gestão rigorosa de identidades e adoção de standards internacionais são hoje o ponto de partida mínimo. Ainda assim, nenhum modelo é completo sem um elemento frequentemente subestimado: as pessoas, cuja capacitação continua a ser uma das principais linhas de defesa.

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Mas é na deteção que se joga hoje uma parte decisiva da maturidade em cibersegurança. No universo IoT, muitos dispositivos operam fora dos perímetros tradicionais, no chamado “edge”, onde a visibilidade é reduzida e os riscos são mais difíceis de antecipar.

É precisamente aqui que a inteligência artificial assume um papel crítico. Ao analisar continuamente o comportamento dos dispositivos na rede, estas soluções estabelecem padrões de normalidade e permitem identificar desvios em tempo real. Um pico de tráfego inesperado, comunicações com destinos desconhecidos ou alterações súbitas de comportamento deixam de passar despercebidos e tornam-se sinais claros de alerta.

A grande vantagem deste modelo é a sua natureza não intrusiva: a análise é feita ao nível da rede, sem necessidade de instalar software nos dispositivos. Isto reduz complexidade, elimina impacto no hardware e permite escalar a segurança em ambientes altamente distribuídos e heterogéneos.

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A terceira dimensão, a resposta, fecha o ciclo. Não basta identificar ameaças, é necessário atuar com rapidez e precisão. Isso implica automatizar ações como o isolamento de dispositivos comprometidos ou o bloqueio imediato de comunicações suspeitas, reduzindo o tempo entre deteção e contenção.

Em paralelo, o enquadramento regulatório está a evoluir rapidamente. Na União Europeia, iniciativas como o Cyber Resilience Act e normas como a EN 18031 estão a redefinir o mercado, exigindo que a segurança seja incorporada desde a fase de conceção dos produtos. Esta mudança não é apenas regulatória, é estrutural e vai separar quem está preparado de quem ficará para trás.

No final, a IoT continuará a ser um dos principais motores da inovação digital. Mas o seu verdadeiro potencial só se concretiza quando é assente em bases de segurança sólidas, pensadas desde o início e executadas de forma contínua.

Porque, num mundo onde tudo está ligado, a questão deixou de ser se o risco existe. Passou a ser se as organizações estão preparadas para o antecipar, antes que ele se transforme numa crise.

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