Como foram documentos secretos da NATO parar à ‘darkweb’? Falha técnica, trabalho interno ou sistemas desatualizados, sugerem especialistas

Esta quinta-feira foi relatado pelo ‘Diário de Notícias’ que vários documentos da NATO classificados como secretos, que estariam na posso da Defesa portuguesa, foram encontrados à venda na ‘darkweb’, uma dimensão obscura da internet onde decorrem transações ilegais e são cometidos vários crimes.

Revista de Imprensa

Esta quinta-feira foi relatado pelo ‘Diário de Notícias’ que vários documentos da NATO classificados como secretos, que estariam na posso da Defesa portuguesa, foram encontrados à venda na ‘darkweb’, uma dimensão obscura da internet onde decorrem transações ilegais e são cometidos vários crimes.

A quebra de segurança foi confirmada pelo Estado-Maior-General das Forças Armadas, sendo que o chefe de Estado-Maior, o almirante Silva Ribeiro, descreveu o incidente como um “ciberataque prolongado e sem precedentes”.

Mas como é que documentos desse grau de secretismo acabaram a ser vendidos na ‘darkweb’? Três especialistas avançam à ‘CNN Portugal’ três possíveis cenários.

O primeiro prende-se com falhas técnicas ou humanas e com o acesso externo aos servidores onde estariam guardados os documentos, explorando alguma falha no sistema informático ou tirando partido de táticas de “engenharia social”, em que os utilizadores mais incautos são levados a clicar em links que permitem o acesso externo.

Nuno Mateus-Coelho, perito em cibersegurança, explica que este tipo de falhas é o mais comum, sendo que está na base de quase 90% de todos os ciberataques.

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“Alguém que consiga enganar um colaborador, um militar – que clicou onde não devia, dando acesso por fora”, salienta.

Por sua vez, Rodrigo Adão da Fonseca, especialista em proteção de dados, lembra o caso dos emails roubados a Hillary Clinton, enquanto era líder da diplomacia dos Estados Unidos, depois de ter usado uma conta gmail para tratar de dados confidenciais.

“Até os Estados Unidos, que são a maior potência global, têm falhas gravíssimas de negligência”, aponta.

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Outro cenário coloca em cima da mesa a possibilidade de a fuga dos documentos da NATO ter sido um trabalho interno. Rodrigo Adão da Fonseca adianta que “alguém privilegiado pega e leva, ou facilita o acesso a terceiros” e frisa que “não podemos excluir esse cenário, que é altamente provável”.

Apesar de considerar que “o Ministério da Defesa [português] tem protocolos rígidos”, reconhece que “não há sistemas infalíveis”.

O terceiro cenário está relacionado com uma infraestrutura informática desatualizada e antiga, que não tem capacidade nem proteções para fazer face a incursões ilegais realizadas com recurso a técnicas modernas.

Nuno Mateus-Coelho sugere que “a falta de investimento poderá ter permitido que um grupo de hackers sondasse a nossa infraestrutura, entrando secretamente na organização para extrair a informação aos poucos”.

“Não saber configurar equipamentos para detetar um intruso, e ver segredos de Estados e dos nossos parceiros da NATO na deepweb é do mais grave do que já vi em Portugal nos últimos tempos”, sublinha o mesmo especialista.

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Para Rodrigo Adão da Fonseca, “ou alguém facilitou nas regras, ou alguém violou as regras. Todas as hipóteses estão em cima da mesa”.

De recordar que Jorge Bacelar Gouveia, presidente do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo (OSCOT), considerou como “grave e preocupante” as falhas do sistema informático militar, que estiveram na origem de uma quebra de segurança que permitiu extrair documentos classificados portugueses na NATO, que foram colocados à venda na ‘darkweb’.

“É uma quebra na reserva e na confidencialidade de dados muito importantes, neste caso dados da NATO, que neste momento está envolvida numa ação de defesa não declarada em relação a uma guerra que está a ocorrer entre a Rússia e a Ucrânia. E, portanto, vejo com a maior das preocupações aquilo que se passou”, explicou o responsável, em declarações à rádio ‘Renascença’.

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