Nova Iorque está prestes a testemunhar um dos julgamentos mais emblemáticos da sua história. As filhas do líder dos direitos civis Malcolm X, assassinado há 60 anos, acusam a CIA, o FBI e o Departamento da Polícia de Nova Iorque (NYPD) de conspirarem no homicídio do ativista. O processo, apresentado no tribunal federal de Manhattan, pede uma indemnização de 95 milhões de euros e visa esclarecer as circunstâncias que envolvem a morte do icónico líder, cujo impacto no movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos permanece inquestionável.
Malcolm X, nascido Malcolm Little e também conhecido como el-Hajj Malik el-Shabazz, foi assassinado a 21 de fevereiro de 1965, aos 39 anos, durante um discurso no Audubon Ballroom, em Nova Iorque. No local, encontravam-se a sua esposa, Betty Shabazz, e três das suas filhas, incluindo Ilyasah Shabazz, que é agora uma das principais impulsionadoras da ação judicial.
“Acreditamos que todos conspiraram para assassinar Malcolm X, um dos maiores líderes intelectuais do século XX,” afirmou Ben Crump, advogado da família, numa conferência de imprensa realizada em novembro passado, no Centro Memorial Malcolm X & Betty Shabazz. Crump, conhecido por representar casos de grande relevância no âmbito dos direitos civis, destacou que a ação judicial procura expor os “atos ignóbeis” das autoridades envolvidas.
De acordo com a acusação, as autoridades norte-americanas mantiveram uma relação “corrupta, ilegal e inconstitucional” com os responsáveis pelo homicídio. A família de Malcolm X alega que agentes governamentais ocultaram provas cruciais que poderiam ter evitado o assassinato. Mais ainda, acusações apontam para uma facilitação ativa do crime, que teria sido “protegido, encoberto e orquestrado” por agentes da CIA, FBI e NYPD.
“O dano causado à família Shabazz é inimaginável, imenso e irreparável,” lê-se na ação apresentada. A família defende que os agentes infiltrados presentes no evento falharam em proteger Malcolm X, mesmo sabendo das ameaças iminentes contra a sua vida.
O julgamento surge na sequência de uma revisão histórica do caso. Em 2020, após o lançamento da série documental Who Killed Malcolm X?, as autoridades reabriram o processo. A série revelou que dois dos três homens condenados pelo crime eram inocentes e sequer estavam presentes no local do assassinato. Estes factos levaram a uma reviravolta judicial, culminando na exoneração dos condenados e reforçando as suspeitas de encobrimento por parte das autoridades.
No entanto, tanto o FBI como o NYPD recusaram comentar o caso em curso, enquanto a CIA não respondeu às solicitações de imprensa.
Malcolm X e Betty Sanders casaram-se em 1958 e tiveram seis filhas: Attallah, Qubilah, Ilyasah, Gamilah Lumumba, Malikah e Malaak. Desde a morte do líder, a família tem lutado para preservar o seu legado e descobrir toda a verdade por trás do assassinato.
“Nunca souberam quem matou Malcolm X, porque ele foi morto ou a dimensão da orquestração do NYPD, FBI e CIA para garantir a sua morte,” afirmam os Shabazz no processo judicial. O advogado Ben Crump espera que este julgamento possa “corrigir os erros históricos” cometidos pelas autoridades e trazer justiça para uma das famílias mais emblemáticas da luta pelos direitos civis.
O julgamento, que começa hoje, promete trazer à tona novos detalhes sobre um dos casos mais marcantes da história dos direitos civis nos Estados Unidos. A possibilidade de que as próprias instituições governamentais tenham conspirado contra um dos seus mais proeminentes cidadãos lança uma sombra sobre o passado do país.
As filhas de Malcolm X afirmam que não desistirão até que a verdade seja totalmente revelada. “Este é um passo importante para honrar o legado do nosso pai e buscar a justiça que ele e a nossa família merecem,” declarou Ilyasah Shabazz.





