No turbilhão político desencadeado pelas recentes eleições na Venezuela, a oposição liderada por María Corina Machado tem adotado uma postura de notável cautela, após ter contestado os resultados. Apesar de acusar abertamente o governo de Nicolás Maduro de fraude eleitoral e de afirmar que Edmundo González, o candidato opositor, é o verdadeiro vencedor, o antichavismo tem sido comedido na convocação de protestos. Em vez de manifestações massivas, a oposição optou por promover assembleias cidadãs, e tem gerido com ‘pinças’ e com ‘pezinhos de lã’ os apelos e comunicações feitas, medindo as palavras de forma a não inflamar os ânimos e gerar uma onda de protestos violentos.
Na segunda-feira, pela primeira vez após a divulgação dos resultados eleitorais, a oposição convocou a população a participar de assembleias cidadãs entre as 11:00 e as 12:00 horas locais. María Corina Machado enfatizou que após os eventos de concentração, os participantes deveriam retornar pacificamente às suas casas. “Queridos venezuelanos, amanhã nos encontramos; em família, organizados, demonstrando a determinação que temos de fazer valer cada voto e de defender a verdade”, publicou a líder oposicionista nas redes sociais. Edmundo González também reforçou a mensagem de calma, destacando a importância da serenidade para alcançar a vitória sem maiores incidentes.
A cautela da oposição não é sem motivo. Experiências anteriores demonstraram que protestos populares na Venezuela, frequentemente violentos, resultaram em grandes perdas sem avanços significativos. Em 2013, após a morte de Hugo Chávez, Nicolás Maduro venceu por uma margem mínima, e as manifestações subsequentes levaram à morte de 43 pessoas, sem que a oposição conseguisse obter ganhos substanciais. Quatro anos depois, as protestas contra a atuação do regime chavista e a crise econômica resultaram em 165 mortos e mais de 15.000 feridos, sem concessões por parte do governo.
Em 2019, Juan Guaidó, então líder opositor, tentou uma insurreição popular apoiado por mais de 50 países e com apoio popular superior a 77%. A tentativa falhou e levou ao exílio de vários líderes opositores e a um enfraquecimento da pressão nas ruas.
O Novo Cenário: Recolha de Provas e Ação Legal
Atualmente, a oposição acredita que o caso é diferente devido à evidência clara de fraude. Imediatamente após as eleições, a oposição começou a recolher o maior número possível de atas eleitorais para comprovar as alegações de fraude. Segundo Carlos González, a oposição já teria obtido 73,2% das atas, demonstrando uma vitória clara de González sobre Maduro. A coleta de provas e a demanda pela publicação integral das atas são centrais na estratégia da oposição.
A líder opositora María Corina Machado e Edmundo González destacaram em uma coletiva de imprensa que, com base nas provas reunidas, o verdadeiro presidente eleito seria González. A oposição está agora focada em contestar legalmente os resultados, enquanto aguarda que o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) publique todas as atas, conforme prometido.
O Papel do Apoio Internacional
Dada a predominância do chavismo no cenário político nacional, a principal esperança da oposição está no apoio internacional. Estados Unidos já exigiu a publicação de todas as atas, mas a eficácia dessa pressão ainda é incerta. Além disso, o foco está em Brasil e Colômbia, países vizinhos com governos de esquerda que mantêm diálogo com o governo de Maduro.
O ministro de Relações Exteriores colombiano, Luis Gilberto Murillo, pediu um recorte total dos votos e uma verificação independente das atas, destacando a importância de ouvir todos os setores da sociedade venezuelana. O governo brasileiro, por sua vez, tem sido mais reservado, embora o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tenha criticado Maduro por suas ameaças de violência, afirmando que a Venezuela precisa de um processo eleitoral respeitado.
A oposição espera que, ao apresentar provas substanciais de fraude eleitoral, consiga convencer os governos de Brasil e Colômbia a tomar uma posição mais firme contra Maduro. Esta poderia ser uma oportunidade para reverter a atual situação política, ainda que o tempo esteja a ser um adversário para a oposição.
A abordagem cautelosa da oposição venezuelana reflete uma compreensão dos fracassos passados e das dificuldades enfrentadas. Enquanto procura provar a fraude eleitoral e mobilizar apoio internacional, a estratégia de reunir provas e manter a calma parece ser uma tentativa calculada de evitar os erros do passado e criar uma base sólida para uma mudança política. A eficácia desta estratégia dependerá, assim, tanto da reação interna quanto do apoio externo, num cenário altamente complexo e volátil.













