O comissário europeu para a Defesa e o Espaço, Andrius Kubilius, alertou esta sexta-feira que a Europa precisa de aumentar rapidamente a produção de mísseis para responder às necessidades militares da Ucrânia e reforçar a capacidade de defesa do próprio continente, numa altura em que a procura global por armamento cresce devido aos conflitos em curso.
Falando a partir da Polónia, primeira paragem da chamada “Missile Tour”, uma série de visitas destinadas a avaliar a capacidade industrial de defesa europeia, Kubilius afirmou que a pressão sobre as cadeias globais de abastecimento de armas se intensificou após a recente operação militar dos Estados Unidos no Médio Oriente.
Segundo o responsável europeu, a situação demonstra que é “crítico” para a Europa expandir rapidamente a sua produção de mísseis.
Necessidades militares da Ucrânia superam capacidade industrial
De acordo com Kubilius, as exigências do campo de batalha na Ucrânia ultrapassam claramente a atual capacidade de produção do Ocidente, sobretudo no que diz respeito a sistemas de defesa aérea.
“Mísseis, drones e munições de 155 mm de longo alcance são as principais prioridades da Ucrânia”, afirmou o comissário europeu, acrescentando que os mísseis se tornaram “a categoria mais difícil” para os aliados fornecerem.
O responsável explicou que a Ucrânia enfrentou quase 2.000 ataques com mísseis em 2025, incluindo cerca de 900 mísseis balísticos lançados pela Rússia. Este tipo de armamento é particularmente difícil de intercetar e exige sistemas avançados de defesa aérea, como o Patriot.
Durante apenas os quatro meses do inverno, o exército ucraniano terá necessitado de cerca de 700 mísseis interceptores Patriot, uma vez que, em muitos casos, são necessários vários mísseis para destruir um único projétil balístico inimigo.
Produção americana não acompanha procura
Kubilius destacou ainda a discrepância entre as necessidades militares e a produção disponível. Em 2025, o fabricante Lockheed Martin produziu 600 mísseis PAC-3, número inferior ao necessário para responder simultaneamente às necessidades da Ucrânia, dos Estados Unidos e de aliados noutras regiões.
“Os americanos não conseguirão fornecer mísseis suficientes para os países do Golfo, para o seu próprio exército e também para a Ucrânia”, afirmou o comissário europeu, sublinhando que “a situação é realmente crítica” e que a Europa precisa de desenvolver a sua produção “de forma muito urgente e muito rápida”.
A recente escalada militar no Médio Oriente veio reforçar as preocupações europeias. Autoridades da UE defendem que esta crise expôs a vulnerabilidade de depender de fornecedores externos para armamento estratégico.
Na quinta-feira, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky revelou que “mais de 800 mísseis norte-americanos foram utilizados apenas nos últimos três dias” no Médio Oriente para intercetar mísseis e drones iranianos.
O chefe de Estado ucraniano acrescentou que “a Ucrânia nunca teve tantos mísseis para repelir ataques”, reforçando os apelos frequentes aos aliados para o envio de mísseis PAC-2 e PAC-3, que, segundo afirmou, costumam ser utilizados poucos dias depois de chegarem ao país.
Europa procura reforçar autonomia militar
Ao lado de Kubilius, o ministro da Defesa da Polónia, Władysław Kosiniak-Kamysz, afirmou que a situação atual demonstra a urgência de fortalecer a indústria europeia de defesa e reduzir a dependência externa.
“A independência da produção de armamento na Europa e cadeias de abastecimento seguras tornam-se ainda mais importantes”, declarou.
O governante polaco salientou que os fabricantes norte-americanos poderão dar prioridade à reposição dos arsenais dos Estados Unidos e dos países do Golfo, o que poderá afetar entregas destinadas à Europa.
Varsóvia assinou recentemente vários contratos para aquisição de equipamento militar norte-americano e está a acompanhar atentamente a evolução dos conflitos internacionais.
“Se este conflito continuar, infelizmente esse risco existe”, afirmou Kosiniak-Kamysz, referindo-se à possibilidade de atrasos nas entregas.
Bruxelas procura soluções financeiras
Para enfrentar estas limitações, a Comissão Europeia está a preparar novos instrumentos de financiamento destinados a reforçar a capacidade militar da Ucrânia e a produção industrial europeia.
Uma das medidas em análise é um empréstimo de 90 mil milhões de euros que a União Europeia pretende disponibilizar a Kiev para garantir a estabilidade financeira do país nos próximos dois anos. Dois terços desse montante destinam-se a despesas militares, com a condição de que as compras privilegiem fabricantes ucranianos e europeus.
No entanto, este financiamento encontra-se atualmente bloqueado por veto da Hungria, relacionado com um diferendo energético com a Ucrânia.
Outra opção é um programa de empréstimos para defesa no valor de 150 mil milhões de euros, ao qual 19 Estados-membros, incluindo a Polónia, já manifestaram interesse em recorrer.
“Missile tour” percorre indústria militar europeia
A visita à Polónia marcou o início da chamada “Missile Tour” (“Tour dos Misseis”) de Andrius Kubilius, uma série de deslocações destinadas a avaliar o estado da indústria de mísseis na Europa.
Depois de Varsóvia, o comissário europeu tem previstas visitas a Itália, Alemanha, Bélgica, Suécia e Finlândia, numa iniciativa que pretende mobilizar governos e empresas para acelerar o desenvolvimento de capacidades militares europeias num contexto internacional cada vez mais instável.




