Talvez um dia…

Por Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati

Julgo que a pandemia nos ensinou que esta frase, ou melhor este pensamento de adiamento de uma experiência ou um desejo, não pode acontecer. Podemos não a poder realizar no momento, por motivos vários, mas certamente temos de tudo fazer para a atingir. Porque quase 2 anos de covid e várias estirpes depois, a efemeridade, a incapacidade de planear com assertividade, a dificuldade de nos adaptarmos à mudança, a incerteza, tornaram-se lugares comuns. Pelo que adiar algo pode significar que nunca vai acontecer. 2022 deve portanto ser o ano de realização e execução. Mas provavelmente num mundo metaverso, um mundo colectivo de realidade virtual que replica o mundo real, em que é possível projectar o nosso alter ego num avatar. Como se de uma cirurgia plástica virtual que realizamos no universo dos dispositivos digitais. Cada vez que o mundo se torna mais digital torna-se mais metaverso, que combina realidade virtual, realidade aumentada, 5G e internet. Este espaço colectivo, virtual, conectado, instantâneo e compartilhado já tem 30 anos como conceito, quando foi citado pela primeira vez na obra “Nevasca”, de Neal Stephenson. Mas os exemplos mais recentes vêm dos videogames, os jogos VRchat, Second life e fortnite. Este conceito não parou e tem vindo a evoluir rapidamente, sendo o mundo da moda e dos videogames os mais activos. A Zara acabou de lançar a primeira coleção metaverso, utilizando a plataforma zepeto de criação de avatars. A Nike e outras marcas famosas já estão a criar coleções com esta filosofia e um dos principais investidores é o Facebook. Ou seja vamos poder intervir, personalizar, adaptar, comprar no nosso mundo digital e virtual, conforme o nosso desejo, com a imagem que nós pretendemos, no lugar que idealizamos. Vamos poder realizar e executar, mas no mundo metaverso! Apesar de parecer insuficiente pois não utilizamos todos os nossos sentidos, ou até pouco intenso pois entramos para dentro dum monitor ou dispositivo móvel e vivemos aí dentro. Quando o mundo real é fabuloso. Mas a tendência pesa positivamente para o mundo virtual. Aí não temos limites, somos o que queremos, expressamos os nossos desejos e sonhos, sem perceber que nada é totalmente real, mas também não é totalmente virtual pois tem algo pessoal, de criação nossa. Em vez de nos apresentarmos em nome próprio e com uma fotografia real, assumimo-nos como um avatar, que explora novos mundos e conhece novos amigos. Mas também jogamos e fazemos compras on-line personalizadas ao nosso alter ego avatar. Não é uma aplicação mas um conceito de rede social que tem vindo a ser atualizada, com um cuidado especial de introduzir experiências reais e marcas de alta notoriedade (como os sapatos Louboutin), que em determinado períodos podemos experimentar e usar gratuitamente na loja.

O primeiro passo é mesmo criar um avatar a partir de uma fotografia, e depois transformá-lo na cor da pele e do cabelo, penteado, formato dos olhos, pestanas, sobrancelhas, nariz, lábios, com os retoques que queremos. Depois é escolher o vestuário, onde poderemos ter de pagar para ter a roupa mais fashion que queremos. Ou mesmo o carro que desejamos passar a usar. Um mundo onde a imaginação é o limite. E talvez este seja um dos segredos mais valiosos do metaverso, entre outros que conseguimos antecipar: podemos interagir e personalizar o nosso mundo virtual sendo a nossa imaginação o limite. Sem nos expormos ou ás nossas fragilidades físicas e emocionais. O nosso avatar projecta o nosso alter ego, não a nossa realidade. Podemos realizar e executar os nossos desejos e sonhos, com a imagem da pessoa virtual que idealizamos para nós. Não existem diabolizações mas apenas endeusamentos. Trata-se do elevador social, figurativo mas também abstracto, digital e virtual. E portanto as marcas e os negócios têm aqui uma oportunidade única de acelerar o processo de compra, a experimentação dos produtos, o aumento da notoriedade e a lealdade à marca. Mesmo em sectores tão tradicionais como por exemplo a banca. A interação básica digital que temos hoje pode passar a ser personalizada pelo utilizador com um gestor de conta virtual criado pelo cliente, num ambiente de sala vip virtual desenhada pelo próprio, em que faz as operações virtuais num ambiente private a que nunca teria acesso no mundo real. A maioria dos leitores dirá:” mas eu não preciso de nada disso no meu negócio!”. Mas precisa, pois comprar deixou de ser um momento para passar a ser uma experiência. Erradicar o “talvez um dia…” é simples quando de forma ética, os centros cerebrais decisivos para o desejo são estimulados. O tálamo, que avalia o sistema de recompensa; o hipotálamo, que coordena a libertação de ocitocina e determina a capacidade de imaginar, ou recriar; e a amígdala, que faz a avaliação emocional dos estímulos apetitivos visuais, nomeadamente faciais e corporais. Assim libertamos os neurotransmissores que nos fazem sentir bem durante a experiência de compra, erradica a dúvida e confirma que estamos a actuar bem quando compramos. “ Produzimos e libertamos ocitocina, um neurotransmissor libertado diretamente no cérebro, onde vai exercer a sua ação comportamental, nomeadamente a confiança em relação a terceiros, determinando afetos positivos, vinculação, humor e felicidade”(Caldwell, 2002). Mas também libertamos dopamina, conhecido como “a hormona do desejo”, com forte influencia sobre a atração, cognição, recompensa e adição sexuais. Assim “modelamos” a ação comportamental tonando-a numa experiência muito positiva.

E se mesmo assim não acredita, pense porque é que o Facebook ou a Zara o estão a fazer?

Em suma, talvez a pandemia tenha acelerado o mundo digital e com isso o mundo metaverso, possibilitando acabar com a frase “talvez um dia…”!


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