O ministro dos afetos

Por Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati

Declaração de interesses: acho a cultura de nomear ministros não políticos (que não são “boys”) para o governo, como uma medida inteligente e excelente para o país!
Hoje escutava o ministro da economia a apresentar os sucessos da economia em 2022, em como as exportações cresceram 11 mil milhões de euros (para 70mM €) só nos três primeiros trimestres do ano. Que isto representava uma economia dinâmica, formada por empresas inovadoras, capitalizadas, com visão blocal do mundo. Também, que grande parte das exportações se devia ao desenvolvimento do turismo sustentável, que promove a cultura portuguesa no mundo. Então se este sucesso aconteceu, porque demitiu o Sr Ministro os 2 secretários de estado responsáveis por ele? Porque saíram os secretários de Estado da Economia João Neves, e a do Turismo Rita Marques? Bem sei que o Sr PM não podia desautorizar o ministro e teve que concordar com a substituição. É lógico que o tenha feito para não criar convulsões noutros ministérios e dar o exemplo. Mas parece-me é que o Sr PM preferiria substituir o ministro mas não pode, pois não quer criar mais escândalos num governo desgastado. Este ministro foi escolhido por si, criou as linhas do PRR e embora tenha pouco “jogo de cintura”, não deixa de ser um exemplo para se demonstrar que o governo não é apenas a comissão nacional do PS. Mesmo depois da polémica relativa ao IRC, em que o titular da pasta da Economia chegou a ser dado como remodelável (e não os SE pois estes defenderam a mesma posição de Costa e Medina). Mas ganhou o ministro, parece-me que pelo motivo de desgaste atrás referido. Coisas da política.
A verdade, é que os dois secretários de estado, há muito que estavam em rota de colisão com o ministro, até porque vinham do gabinete do anterior ministro Siza Vieira. E não pretendo criticar os novos secretários de estado nomeados que me parecem competentes pelos seus currículos. Mas num ano (2022) em que Costa Silva admite uma execução aquém do objetivo do PRR, em que promete especial atenção no próximo ano; um ano de 2023 repleto de outros desafios macroeconómicos, mudar os decisores da economia não me parece muito avisado. Mais quando pelos vistos estavam a ter óptimos resultados segundo o próprio ministro, exceto no PRR. E provavelmente por uma “birra”. O que é legítimo, pois estas nomeações incluem confiança política. Mas o futuro do país tem de estar à frente das desconfianças, da falta de afeto, da sincronização de ideias entre ministro e secretários de estado. Mais quando tudo, pelos vistos, corre bem! Discordar nas ideias faz parte do processo de discussão que traz resultados. Portanto o Sr Ministro não pode demitir SE com base em afetos, mas sim em resultados. E quando temos o ministro e o “patrão da CIP” a elogiar os resultados do SE demitidos, elogiando António Saraiva, nomeadamente o antigo secretário de Estado da Economia, João Neves, como “um político empenhado, interessado e sempre disponível”, apetece dizer: temos um ministro de afetos!


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