Colónia Agrícola dos Milagres foi primeira experiência de colonização interna no país

A Colónia Agrícola dos Milagres, no concelho de Leiria, foi a “primeira experiência de colonização interna em Portugal” e marcou “o início de uma política que o Estado pretendia alargar ao resto do país”, revelou a investigadora Sara Mónico.

Executive Digest com Lusa

A Colónia Agrícola dos Milagres, no concelho de Leiria, foi a “primeira experiência de colonização interna em Portugal” e marcou “o início de uma política que o Estado pretendia alargar ao resto do país”, revelou a investigadora Sara Mónico.

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“A Colónia Agrícola dos Milagres tem importância sobretudo por ter sido a primeira experiência de colonização interna em Portugal e por marcar o início de uma política que o Estado pretendia alargar ao resto do país”, declarou Sara Mónico, doutorada em Antropologia.


Explicando que “foi concebida como um projeto-piloto, onde se testou um modelo de instalação de famílias em casais agrícolas, dotados de habitação, terrenos para cultivo e infraestruturas de apoio”, Sara Mónico reconheceu que, “ao longo da sua existência, serviu também para experimentar diferentes critérios de seleção dos colonos e modelos de exploração agrícola, refletindo a evolução das políticas de colonização interna do Estado Novo”.


“Apesar da sua importância pioneira, revelou igualmente as dificuldades e limitações deste modelo, nomeadamente devido à fraca aptidão de alguns terrenos, à preparação insuficiente de alguns colonos e aos resultados agrícolas abaixo das expectativas”.


Segundo a docente da Escola Superior de Educação e Ciências Sociais do Politécnico de Leiria, em processo de transformação para Universidade de Leiria e Oeste, “as colónias agrícolas surgiram na sequência das ideias fisiocráticas e de um longo debate, iniciado no século XVIII, sobre a necessidade de aproveitar o território nacional”.

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“O seu objetivo era transformar grandes áreas de baldios e terrenos incultos em terras produtivas, fixando famílias, desenvolvendo a agricultura, aumentando a produção de cereais e modernizando o mundo rural, na convicção de que uma agricultura forte era a base do crescimento económico do país”.


A importância da Colónia Agrícola dos Milagres, que assinala 100 anos no sábado, mede-se em termos locais, mas também nacionais.


“A nível local, a colónia transformou a paisagem e a ocupação do solo, mas também gerou conflitos. A apropriação e divisão de terrenos baldios retiraram às populações vizinhas áreas que eram tradicionalmente utilizadas para pastoreio, recolha de lenha e outras atividades essenciais à economia rural, criando tensões sociais entre colonos e habitantes locais”, recordou.


Já a nível nacional, “a Colónia dos Milagres constitui um marco na afirmação da intervenção do Estado sobre o mundo rural, procurando, aparentemente, responder aos problemas da agricultura e da fixação da população, mas os seus resultados ficaram muito aquém das expectativas”.


“Apesar do investimento técnico e científico, estas experiências não conseguiram travar o abandono do mundo rural, nem a emigração que se intensificou nas décadas seguintes”, adiantou a docente natural de Leiria.

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Nesse sentido, “o seu valor não reside tanto no sucesso da iniciativa, que não aconteceu, mas no facto de representar um momento importante para a história das políticas agrárias e do ordenamento do território, que há muito se falava”.


Sara Mónico adiantou que, “do ponto de vista patrimonial, a Colónia dos Milagres conserva um valor histórico e documental significativo, apesar da pouca visibilidade que tem”.


“É um testemunho das políticas agrárias do século XX, em regimes políticos distintos, das formas de ocupação e organização do território e das experiências de colonização interna, mas também das suas limitações, ou seja, dos conflitos que suscitaram (entre população das aldeias próximas e entre os próprios colonos) e das mudanças sociais que ajudaram a efetivar”, relatou.


Nascida no regime republicano (a lei é de 1925), mas concretizada num regime ditatorial, a Colónia Agrícola “registou várias mudanças de atribuição de responsabilidades e de reorganizações” e, “apesar de tudo, conseguiu sobreviver até ao fim do Estado Novo”, acrescentou a investigadora.

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