A possibilidade de um colapso do governo francês já a partir de 8 de setembro tem provocado aumentos nos custos de financiamento de França e quedas nos mercados acionistas.
Christian Schulz, Economista-Chefe da Allianz Global Investors (AllianzGI), antecipa que os ativos de risco franceses continuem a apresentar desempenho inferior, que os spreads soberanos se alarguem e que o euro enfrente dificuldades até que a instabilidade política se atenue.
O primeiro-ministro François Bayrou surpreendeu os mercados a 25 de agosto ao anunciar uma moção de confiança sobre o seu plano para reduzir o défice orçamental. A reação dos principais partidos da oposição foi imediata: anunciaram que votariam contra Bayrou e o seu governo minoritário. Por seu lado, o ministro da Justiça, Gérald Darmanin, admitiu à France 2 TV a possibilidade de dissolução do parlamento, o que levaria a eleições antecipadas.
Os custos de financiamento a 10 anos de França atingiram 3,53%, o nível mais alto desde março, enquanto o índice CAC40 registou uma queda próxima de 2% no dia 26 de agosto, a caminho do segundo dia consecutivo de perdas.
Esta turbulência política ocorre pouco mais de um ano após o presidente Emmanuel Macron ter convocado e perdido eleições antecipadas, que resultaram numa maior fragmentação do parlamento. Num contexto político tão dividido, as hipóteses parecem desfavoráveis para Bayrou, a menos que consiga conquistar o Partido Socialista e persuadir a extrema-direita a abster-se na votação de confiança.
Mesmo assim, não se exclui que um orçamento mais moderado para 2026 possa ser aprovado sob um novo primeiro-ministro. Caso se realizem eleições parlamentares antecipadas, espera-se a formação de outra coligação instável ou de um governo liderado pela esquerda ou pela direita.
A AllianzGI identifica três questões-chave associadas à votação de confiança:
- Impacto na situação fiscal de França: Sem medidas significativas de austeridade, ou mesmo com aumento da despesa, o défice poderá aumentar, pressionando os custos de financiamento. O governo prevê um défice de 5,4% do PIB em 2025 e de 4,6% em 2026, dentro de um plano de quatro anos para alinhar o défice com o limite de 3% da UE.
- Impacto no crescimento europeu: A instabilidade política tende a afetar a confiança económica, podendo levar empresas a adiar investimentos e contratações. Em França, a confiança do consumidor está correlacionada com a popularidade dos políticos. Uma diminuição da confiança pode reduzir o consumo, enfraquecendo a economia francesa e, por extensão, o crescimento europeu.
- Risco para a coesão europeia: A incerteza política francesa afeta os ativos de risco europeus e o euro. A política externa e europeia permanece maioritariamente sob controlo presidencial, e não se prevê mudança iminente de Macron. No entanto, descontentamento com a governação centrista pode fortalecer os extremos, abrindo a possibilidade de um confronto entre candidatos da extrema-esquerda e extrema-direita na segunda volta das presidenciais de 2027, o que poderia complicar a cooperação com a UE.
Apesar destes riscos, a AllianzGI destaca que a resiliência da zona euro melhorou desde a crise da dívida soberana de 2011-12. Instrumentos como o TPI do Banco Central Europeu e o Mecanismo Europeu de Estabilidade (ESM) estão preparados para intervir em mercados desordenados. Reformas e disciplina fiscal em países anteriormente em crise restauraram competitividade e saúde financeira, evitando contágio devido ao aumento dos spreads franceses.






