O círculo mais próximo que que rodeia o Presidente dos EUA Donald Trump tem vindo a delinear estratégias para apresentar a intervenção militar no Irão como um sucesso, apesar da ausência de uma rendição clara por parte do regime iraniano. Segundo analistas e relatos de Washington, a Administração procura criar condições para uma saída honrosa que possa ser percebida pelos eleitores como uma vitória, num contexto de pressão económica e política intensa.
A guerra prolongada e o bloqueio no estreito de Ormuz têm gerado temores de aumento dos preços mundiais do petróleo, afectando particularmente a economia norte-americana. Além disso, o conflito é amplamente impopular nos Estados Unidos, provocando uma queda significativa na popularidade do presidente, que enfrenta críticas até dentro da sua própria base e de aliados mediáticos.
A Administração Trump encontra-se numa posição complicada devido à falta de objetivos claros e à pressão crescente sobre os custos económicos e políticos. As recentes declarações de Mojtaba Khamenei, novo líder supremo do Irão, de intenção de continuar a luta e de incentivo aos Huthis para defender interesses comuns, intensificam as dificuldades para o presidente perante os seus eleitores mais próximos.
O prolongamento do bloqueio no estreito de Ormuz e o possível retomar de ataques a navios no golfo de Adén pelos Huthis poderão fazer disparar os preços do petróleo globalmente, repercutindo-se diretamente nos Estados Unidos.
Surpresa na Casa Branca e experiência limitada dos conselheiros
Após quase duas semanas de guerra, a Casa Branca começa a aceitar que não haverá uma “rendição incondicional” iraniana. Esta realidade surpreendeu Trump e alguns dos seus conselheiros, como Steve Witkoff, que não compreendia a recusa dos ayatollahs em chegar a acordo mesmo com porta-aviões norte-americanos próximos da costa iraniana.
Parte da responsabilidade recai sobre a escolha de conselheiros com experiência limitada em negociações diplomáticas de alto nível, como Witkoff e Jared Kushner, genro do presidente. Kushner participou nos Acordos de Abraham em 2020, mas o sucesso dessa iniciativa foi atribuído à sua relação privilegiada com figuras chave dos Emirados Árabes Unidos, uma dinâmica que não se reproduz em Teerão.
Mesmo com a superioridade militar do exército dos EUA sobre as forças iranianas, o fim do conflito continua incerto, num cenário comparável à ofensiva das Forças de Defesa de Israel (FDI) na Faixa de Gaza, onde ataques intensos durante dois anos não resultaram na rendição do Hamas.
Minagem do estreito de Ormuz e críticas internas
Irão iniciou a colocação de minas no estreito de Ormuz, e Trump ameaçou aplicar “consequências nunca vistas” caso estas não fossem removidas. A situação coloca o presidente numa posição delicada, dado que havia prometido não envolver os EUA em guerras a milhares de quilómetros e resolver a inflação rapidamente. O incumprimento simultâneo destas promessas poderia danificar seriamente a sua reputação.
Figuras mediáticas como Tucker Carlson e o podcaster Joe Rogan criticam abertamente o que consideram um “enganar” da base MAGA, apesar de esta ainda mostrar apoio maioritário a Trump nas sondagens. Entre os independentes, essenciais para o resultado eleitoral, apenas 20% demonstram apoio ao presidente.
Segundo a média ponderada de Nate Silver, a popularidade de Trump situa-se agora nos 41%, ligeiramente acima de momentos polémicos anteriores, mas inferior ao início do conflito. A tendência é de queda caso os preços de gasolina e fertilizantes continuem a subir, afetando a economia rural e industrial.
Conflitos com aliados e indefinição estratégica
O ambiente político internacional também se complica com desentendimentos entre Trump e Benjamin Netanyahu sobre como e quando terminar a guerra. A estratégia de declarar uma rendição incondicional, mesmo que apenas simbólica, implica um elevado grau de aceitação pública, muitas vezes irreconciliável com a realidade no terreno.
Trump afirma que a derrota do Irão seria reconhecida quando o país não tivesse misseis, drones ou capacidade de reconstruir arsenal militar, posição partilhada por Netanyahu. Contudo, o risco é grande: uma retirada prematura sem alcançar os objetivos militares e políticos pode comprometer a estabilidade regional e a reputação do presidente.
O Pentágono estima que apenas nos primeiros seis dias de guerra os custos tenham ascendido a 11,3 mil milhões de dólares, números insustentáveis para um país com dívida pública de 38,5 mil milhões, com a China como segundo maior credor.
Cenários de intervenção e riscos para os republicanos
A incerteza sobre a estratégia persiste. Conversas telefónicas de Trump com líderes do G7 geraram ambiguidade sobre se pretende encerrar rapidamente a guerra ou prolongá-la. O secretário da Defesa, Pete Hegseth, afirmou que a operação só acabará “quando Trump decidir”, refletindo a falta de decisões claras.
Possíveis intervenções, como na ilha de Jark, onde se encontram reservas de petróleo iranianas, poderiam justificar uma saída considerada vitoriosa, mas implicariam deixar tropas no terreno e enfrentar contra-ataques, cenário temido pelos isolacionistas do movimento MAGA, incluindo o vice-presidente J. D. Vance.
O risco de encerrar prematuramente o conflito sem atingir os múltiplos objetivos é elevado, tanto para a segurança na região como para o prestígio de Trump. Por outro lado, prolongar indefinidamente a guerra agrava os custos globais e internos, colocando em risco a posição do Partido Republicano nas eleições de meio do mandato em novembro.
A história mostra que Irão politicamente derrubou presidentes como Jimmy Carter, e especialistas alertam que pode fazer o mesmo com Trump e os republicanos, salvo se ocorrer uma decisão estratégica de génio. A atual administração parece rodeada de conselheiros incapazes de apresentar oposição às decisões do presidente, expondo as consequências de tal abordagem.














