Cinco vagas de calor, seca e colheitas em risco: agricultores britânicos avisam que preços dos alimentos podem subir

Agricultores britânicos dizem ter chegado ao “limite” depois de um verão marcado por sucessivas vagas de calor e seca, que estão a afetar culturas e animais e a colocar em risco a sobrevivência de explorações agrícolas

Francisco Laranjeira

Agricultores britânicos dizem ter chegado ao “limite” depois de um verão marcado por sucessivas vagas de calor e seca, que estão a afetar culturas e animais e a colocar em risco a sobrevivência de explorações agrícolas. As consequências poderão acabar por chegar aos consumidores, através de menor disponibilidade de alguns alimentos e preços mais elevados.

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Segundo o ‘The Independent’, o risco de incêndios, a escassez de água, as más colheitas e o aumento dos custos dos combustíveis e fertilizantes estão a agravar as dificuldades financeiras do setor. Agricultores e organizações agrícolas pedem agora apoio de emergência ao Governo britânico e menos burocracia para investimentos que permitam enfrentar períodos de seca.

“Nos últimos cinco anos consecutivos, o clima teve um grande impacto no nosso fluxo de caixa e nas culturas”, explicou ao jornal Martin Lines, agricultor em Cambridgeshire e diretor executivo da Nature Friendly Farming Network. “As alterações climáticas estão a chegar mais depressa e com mais força do que alguma vez nos disseram.”

Um efeito de “secador” sobre os campos

As temperaturas elevadas das últimas semanas estão a produzir aquilo que os agricultores descrevem como um efeito de “secador”: o calor acelera a evaporação da humidade, submete os animais a stress térmico e prejudica o desenvolvimento de culturas como os tubérculos.

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Produtores e retalhistas alertam, por isso, para o risco de menor disponibilidade de fruta e batata. As fracas colheitas de cereais estão também a encarecer a alimentação dos animais, criando uma cadeia de consequências que poderá terminar em preços mais elevados da carne.

A produção de leite já estará a sentir os efeitos. A Agriculture and Horticulture Development Board alertou para uma redução dos rendimentos devido ao stress térmico das vacas e à deterioração das condições das pastagens.

Animais já estão a consumir comida destinada ao inverno

James McCulloch, responsável pela área de alimentação animal da Agricultural Industries Confederation, explicou que, depois de uma primavera húmida ter permitido uma época razoável para a produção de silagem, a situação mudou rapidamente.

Nas últimas seis semanas, disse, as condições passaram “de mal a pior”. Algumas explorações já estão a utilizar reservas de alimentação que deveriam servir para o inverno, enquanto outras enfrentam a escolha entre comprar rações suplementares, com custos elevados, ou manter os animais dentro dos estábulos.

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O problema surge depois de cinco vagas de calor sucessivas terem colocado o gado sob forte stress térmico.

Agricultores querem armazenar água do inverno

Uma das principais reivindicações do setor passa pela construção de reservatórios dentro das próprias explorações, capazes de armazenar durante os meses húmidos a água necessária para irrigar as culturas no verão.

As organizações agrícolas queixam-se, porém, de processos de licenciamento caros e demorados. Defendem também procedimentos mais simples para construir estufas e outras estruturas capazes de proteger as culturas das condições meteorológicas extremas.

“Os agricultores que querem investir não conseguem recolher a água abundante no inverno e depois ficam a ver as suas culturas murchar e morrer no verão”, alertou Gavin Lane, presidente da Country Land and Business Association.

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A consequência, avisou, acabará por ser sentida fora das explorações: “Menos alimentos britânicos nas prateleiras e um preço mais elevado na caixa.”

Cinco anos sem ganhar dinheiro com as culturas

Para algumas explorações familiares, o problema deixou entretanto de ser apenas o verão de 2026. Martin Lines, que explora 165 hectares juntamente com o filho, afirma que a sucessão de condições meteorológicas adversas está a tornar cada vez mais difícil planear o futuro.

“Nos últimos anos não ganhámos dinheiro com as nossas culturas”, contou, admitindo que a situação representa uma forte pressão psicológica. A previsão de rentabilidade para os próximos cinco anos, acrescentou, é “terrível”.

O agricultor alerta que as pequenas explorações familiares são particularmente vulneráveis, sobretudo quando vários anos consecutivos de perdas retiram capacidade financeira para investir na adaptação.

“A evidência está a gritar connosco”

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Baroness Brown, que lidera os trabalhos sobre adaptação do Climate Change Committee, organismo independente que aconselha o Governo britânico, considera que os sinais provenientes da agricultura são claros.

“A evidência está a gritar connosco que temos de fazer alguma coisa”, afirmou, alertando que os problemas nas colheitas e na produção de leite, conjugados com impactos semelhantes noutros países europeus, deverão exercer pressão sobre os preços.

O Governo britânico garante estar a trabalhar com agricultores, autoridades ambientais e empresas de abastecimento de água e afirma que pretende facilitar a construção de reservatórios de irrigação.

Para o setor, porém, a urgência é maior. “Os agricultores são pessoas resilientes”, resumiu Gavin Lane. “Mas resiliência não pode significar absorver perdas ano após ano. A certa altura, alguma coisa acaba por ceder.”

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