A NATO está reunida em Ancara numa das cimeiras mais delicadas da sua história recente. Aos 77 anos, a Aliança Atlântica mantém a imagem habitual de unidade, com líderes dos 32 Estados-membros sentados à mesma mesa, mas o contexto mudou profundamente: a organização que durante décadas ligou a segurança da Europa ao poder militar americano está a tentar adaptar-se a uns Estados Unidos menos previsíveis.
Segundo a análise do ‘El País’, a cimeira decorre com cinco frentes abertas em simultâneo: a volatilidade de Donald Trump, a ameaça russa, as tensões entre aliados europeus, a crise no Médio Oriente e o crescimento das ameaças híbridas contra infraestruturas críticas, telecomunicações e cabos submarinos.
A frente mais sensível está dentro da própria Aliança. Donald Trump chega à cimeira depois de voltar a criticar os aliados europeus, acusando-os de dependerem da proteção americana sem contribuírem o suficiente. Mesmo com o compromisso de os membros caminharem para gastos em defesa equivalentes a 5% do PIB até 2035, o presidente dos Estados Unidos continua a questionar o valor estratégico da NATO para Washington.
O desconforto europeu aumentou depois de os Estados Unidos anunciarem uma revisão da sua presença militar no continente. Washington já confirmou a retirada de quase cinco mil militares de bases na Alemanha e cortes em equipamento associado aos planos de defesa da NATO, incluindo capacidades aéreas e navais. Para os aliados, o problema não é apenas operacional: é a dúvida sobre até que ponto Trump continua comprometido com o artigo 5º, o princípio de defesa coletiva que sustenta a Aliança desde 1949.
A Rússia continua a ser o outro grande teste. A versão preliminar da declaração da cimeira, citada pelo ‘El País’, descreve Moscovo como uma ameaça de longo prazo à segurança euro-atlântica. A guerra na Ucrânia arrasta-se há mais de quatro anos e, embora Vladimir Putin possa estar a ver a sua janela de oportunidade estreitar-se, várias fontes diplomáticas admitem que isso pode aumentar o risco de novas ações agressivas contra países aliados.
Os números citados pelo Conselho Europeu de Relações Externas ajudam a explicar a preocupação. Apesar de cerca de 1,2 milhões de baixas na frente ucraniana, a Rússia terá aumentado o efetivo militar em 234 mil soldados só em 2025, além de formar novas divisões, brigadas e regimentos. A mensagem que o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, quer transmitir a Moscovo é direta: qualquer tentativa de testar a Aliança encontrará os aliados preparados.
O apoio à Ucrânia continua a ser uma prioridade estratégica, mas também aqui o equilíbrio mudou. Com Trump de regresso à Casa Branca, são sobretudo os aliados europeus e o Canadá que financiam Kiev, muitas vezes através da compra de armamento americano. A declaração da cimeira deverá reafirmar que a Ucrânia contribui para a segurança transatlântica e apontar para 70 mil milhões de euros em apoio este ano, embora grande parte desse montante já tenha sido anunciada ou desembolsada.
A terceira frente está na própria Europa. A NATO continua a ser uma aliança transatlântica, mas o seu centro de gravidade está a deslocar-se. Com Washington menos disponível para garantir sozinho a segurança europeia, os aliados do continente terão de assumir mais responsabilidades. Isso abre uma disputa inevitável: quem lidera a defesa europeia quando os Estados Unidos já não querem ocupar esse lugar da mesma forma?
As tensões já são visíveis. Reuniões em formato restrito entre França, Alemanha e Ucrânia, sem Itália e Polónia, foram recebidas com irritação em Roma e Varsóvia. O debate sobre autonomia estratégica europeia deixou de ser teórico. Passou a envolver dinheiro, indústria de defesa, comandos militares, prioridades nacionais e estatuto político dentro da própria Aliança.
A guerra no Irão e a segurança no Estreito de Ormuz acrescentam outra camada de tensão. Embora o conflito não seja formalmente uma questão da NATO, Trump transformou a falta de apoio europeu à ação americana numa queixa contra os aliados. Alguns países recusaram a utilização de bases nos seus territórios para operações ligadas ao conflito, agravando o mal-estar entre Washington e várias capitais europeias.
A Turquia, anfitriã da cimeira, procura também dar peso regional ao encontro. Ancara convidou representantes dos Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Qatar e Bahrain, países ligados à Iniciativa de Cooperação de Istambul. O objetivo é projetar a discussão para lá da guerra na Ucrânia e abordar uma instabilidade que afeta energia, comércio, rotas marítimas e segurança global.
A quinta frente é menos visível, mas cada vez mais central: a guerra híbrida. A NATO identifica uma “zona cinzenta” onde propaganda, sabotagem, ciberataques, pressão económica, manipulação de redes sociais, inteligência artificial e desinformação substituem tanques e mísseis. Rússia, China e atores não estatais exploram vulnerabilidades nas cadeias de abastecimento, nos sistemas digitais e nas infraestruturas críticas.
A sabotagem de cabos submarinos, os ataques informáticos e os sobrevoos de drones ligados à Rússia em vários países aliados aceleraram a preocupação. A Aliança quer reforçar o flanco oriental, proteger infraestruturas críticas, fortalecer a base industrial de defesa e acompanhar a cooperação crescente entre Moscovo e Pequim, incluindo exercícios conjuntos no Mar Báltico.
A cimeira de Ancara é, por isso, mais do que uma demonstração de unidade. É um teste à capacidade da NATO de mudar sem se partir. A organização que durante décadas assentou na proteção norte-americana tenta agora continuar a dissuadir a Rússia, apoiar a Ucrânia, responder a crises globais e proteger infraestruturas críticas, enquanto aprende a viver com uns Estados Unidos menos previsíveis.






