Arranca esta segunda-feira, em Paris, a Cimeira para Ação sobre Inteligência Artificial, um encontro global copresidido pela França e pela Índia, que reúne cerca de uma centena de países e mais de mil representantes do setor privado e da sociedade civil. O objetivo central da cimeira é a criação de uma plataforma mundial que sirva como incubadora para o desenvolvimento de inteligência artificial (IA) orientada para o interesse geral, promovendo inovação sustentável e inclusiva.
A agenda do encontro inclui debates sobre a necessidade de uma IA mais sustentável—uma vez que esta tecnologia exige elevados consumos energéticos—, mais aberta e acessível, e a implementação de uma governação global mais equilibrada e representativa.
A cimeira faz parte de uma semana dedicada à inteligência artificial, que decorre desde a semana passada em Paris e reúne líderes políticos, representantes da sociedade civil, investigadores e grandes empresas tecnológicas. As discussões prolongam-se até terça-feira, 11 de fevereiro.
Presença de líderes globais e grandes nomes do setor tecnológico
O evento conta com a presença de vários líderes mundiais, incluindo a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, o vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, o chanceler alemão, Olaf Scholz, e o vice-primeiro-ministro da China, Zhang Guoqing, que representa o presidente Xi Jinping como enviado especial.
A presença de Zhang Guoqing confirma o interesse da China na cimeira, numa altura em que a regulação da inteligência artificial se torna um tema cada vez mais sensível no cenário geopolítico. O Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês anunciou na semana passada a participação do governante, reforçando o envolvimento de Pequim no debate global sobre o futuro da IA.
Além dos chefes de Estado e de governo, o encontro reúne investigadores e altos executivos das maiores empresas do setor. A presidência francesa tem procurado assegurar a participação de figuras de destaque, incluindo Elon Musk, proprietário da X (antigo Twitter), e Liang Wenfeng, fundador da start-up chinesa DeepSeek.
China sob os holofotes com o avanço da DeepSeek
Nos bastidores da cimeira, um dos temas que mais atenção tem gerado é o rápido crescimento da DeepSeek, plataforma chinesa de inteligência artificial que recentemente causou impacto no setor com o lançamento do seu modelo V3. Desenvolvido em apenas dois meses e com um orçamento inferior a 6 milhões de dólares (cerca de 5,7 milhões de euros), o modelo tornou-se um dos principais concorrentes no campo da IA generativa.
No entanto, o sucesso da DeepSeek não está isento de controvérsias. A aplicação tem sido alvo de críticas devido à sua conformidade com a censura imposta pelo governo chinês, recusando-se a responder a questões sobre temas politicamente sensíveis, como o Massacre de Tiananmen de 1989 ou o estatuto de Taiwan. Estas limitações levantam preocupações sobre a transparência e a utilização ética da inteligência artificial desenvolvida sob diretrizes estatais restritivas.
A cimeira em Paris ocorre num momento em que governos de todo o mundo procuram definir estratégias para regular a inteligência artificial, equilibrando inovação tecnológica com preocupações sobre segurança, ética e impacto social.
Entre os desafios a serem discutidos estão a necessidade de transparência nos algoritmos, o risco de desinformação impulsionada por modelos de IA e a crescente influência das grandes empresas tecnológicas na definição dos padrões globais.
O evento decorre num contexto de crescente rivalidade tecnológica entre os Estados Unidos e a China, onde a regulação da IA se tornou um dos principais pontos de confronto entre as duas potências. Washington tem pressionado por regras mais rígidas e maior escrutínio sobre o desenvolvimento de IA, enquanto Pequim aposta numa estratégia agressiva de inovação liderada pelo setor estatal e privado.
A presidência francesa sublinha a importância de um debate global inclusivo, onde todos os países possam contribuir para a definição de normas internacionais. “Precisamos de um modelo de governação que não seja dominado por um pequeno grupo de países ou empresas, mas que envolva a comunidade internacional como um todo”, afirmou uma fonte do Palácio do Eliseu.
A cimeira prolonga-se até terça-feira e espera-se que dela resultem iniciativas concretas para reforçar a cooperação internacional no domínio da inteligência artificial.














