Cientistas suíços descobriram que hantavírus ligado a surto em cruzeiro pode deixar vestígios no corpo durante quase seis anos

Material genético do vírus Andes pode persistir no trato reprodutivo masculino durante um período muito superior ao que se imaginava, chegando aos 71 meses, ou seja, quase seis anos

Francisco Laranjeira

O surto de hantavírus detetado no navio de cruzeiro ‘MV Hondius’ voltou a colocar sob atenção uma descoberta feita por cientistas suíços em 2023: o material genético do vírus Andes pode persistir no trato reprodutivo masculino durante um período muito superior ao que se imaginava, chegando aos 71 meses, ou seja, quase seis anos.

O dado é particularmente relevante porque o vírus Andes é uma exceção dentro da família dos hantavírus. Ao contrário de outras variantes, normalmente transmitidas de roedores para humanos, esta estirpe já foi associada a transmissão entre pessoas, sobretudo em contextos de contacto próximo e prolongado. Segundo o ‘El Economista’, é esta possibilidade que está agora a alarmar a comunidade científica no caso do ‘MV Hondius’.

A investigação suíça analisou amostras de sobreviventes infetados pelo vírus Andes e detetou RNA viral no trato reprodutivo muito tempo depois da fase aguda da doença. A conclusão não significa, por si só, que uma pessoa permaneça contagiosa durante quase seis anos, mas levanta novas questões sobre a forma como o vírus pode persistir no organismo e sobre eventuais vias de transmissão ainda pouco compreendidas.

Essa distinção é essencial. A presença de material genético viral não equivale necessariamente à existência de vírus ativo capaz de infetar outra pessoa. Ainda assim, para os investigadores, a persistência prolongada do RNA no organismo é um sinal que justifica mais estudos, sobretudo porque a transmissão do vírus Andes pode ocorrer através de contacto direto e prolongado com fluidos de uma pessoa infetada.

O alerta ganha maior peso no contexto do cruzeiro ‘MV Hondius’, onde foram confirmados 11 casos de hantavírus, três dos quais mortais, de acordo com o ‘El Economista’. Um cidadão espanhol infetado encontra-se em situação estável. A particularidade do ambiente a bordo — espaços fechados, convivência prolongada e contactos repetidos entre passageiros e tripulantes — tornou o surto especialmente relevante para os especialistas em saúde pública.

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O vírus Andes foi identificado pela primeira vez em 1996, na região dos Andes, na América do Sul. Desde então, tem sido estudado precisamente por apresentar uma característica incomum entre os hantavírus: a possibilidade de transmissão pessoa a pessoa. A descoberta suíça de 2023 acrescentou uma nova camada de complexidade, ao indicar que o vírus pode deixar vestígios no organismo muito para além do período inicial da infeção.

No plano clínico, a doença continua a não ter tratamento antiviral específico nem vacina autorizada. Os doentes são tratados com medidas de suporte, incluindo oxigénio e, nos casos mais graves, ventilação mecânica. Mas o foco das autoridades, em situações de surto, passa sobretudo pelo isolamento dos infetados, rastreio de contactos e vigilância rigorosa de sintomas.

A Organização Mundial da Saúde recomenda que a resposta a surtos deste tipo seja coordenada internacionalmente, sobretudo quando há passageiros de várias nacionalidades envolvidos. No caso do ‘MV Hondius’, o objetivo é perceber a origem da infeção, identificar eventuais cadeias de transmissão e acompanhar pessoas que possam ter estado em contacto próximo com os casos confirmados.

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A descoberta dos cientistas suíços não transforma o vírus Andes numa ameaça de transmissão generalizada, mas ajuda a explicar por que razão este surto está a ser acompanhado com atenção. O que está em causa não é apenas uma infeção rara a bordo de um cruzeiro, mas a confirmação de que alguns vírus podem permanecer no corpo humano durante períodos inesperadamente longos, obrigando a ciência a olhar de novo para as suas formas de persistência e transmissão.

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