Dois meses depois de o Reino Unido ter dado o alarme ao detetar os primeiros casos de hepatite aguda infantil, ainda há tantas incógnitas como hipóteses. A mais recente tem que ver com cães, que podem ser uma possível causa do misterioso surto que agora afeta mais de 18 países ao redor do mundo.
Segundo o ‘ABC’, foram as autoridades de saúde britânicas que afirmaram haver uma alta correlação entre o elevado número de menores afetados que pertencem a famílias que têm cães ou foram expostos a estes animais de estimação.
No seu último relatório, a Agência de Segurança da Saúde do Reino Unido (UKHSA) aponta que até 70% das crianças (64 de 92 analisadas) tiveram um cão ou foram expostas a esses animais.
A UKHSA acrescenta que “o significado desta descoberta está a ser explorado”, mas que pode ser uma coincidência porque a posse de cães é comum no Reino Unido.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) continua a receber dezenas de relatos de casos de uma misteriosa hepatite que afeta crianças e até agora resultou em cerca de 230 casos em todo o mundo, informou a instituição na terça-feira.
“Até 1 de maio, 228 casos foram relatados à OMS em 209 países e outros 50 estão sob investigação”, disse o porta-voz, Tarik Jasarevic, a jornalistas em Genebra durante a última aparição pública do órgão de saúde.
A maioria dos casos são registados na Europa, especialmente no Reino Unido. Mas também há casos nos Estados Unidos, que já comunicaram cinco mortes e 15 transplantes de fígado devido à doença.
Em Portugal, subiu para oito o número de casos suspeitos de hepatite aguda infantil, de acordo com o último balanço da Direção-Geral da Saúde (DGS), que vai passar, através da task-force criada para o efeito, a monitorizar diariamente a evolução da doença.
O que já sabe:
Rui Tato Marinho, coordenador do programa nacional para as hepatites virais da DGS, já tinha referido à Multinews que a doença resulta em “alterações muito grandes nas análises do fígado” e “muitas vezes começa com vómitos, febre, dores de barriga e em casos mais graves os olhos amarelos, a chamada icterícia”.
Segundo o especialista, “é uma hepatite em crianças muito pequenas, entre 2 e 4 anos”, nas quais “foi detetado um vírus conhecido por ‘adenovírus’, que também foi identificado na Covid, mas não quer dizer nada”, explicou no final do mês passado, adiantando que “não é nenhum dos vírus comuns, A, B,C,D,E”, que são identificados com maior frequência.
“Em cerca de 10% dos casos” é necessário um transplante. “Em 10 crianças há uma que agora precisa de um transplante, tendo já sido transplantadas cerca de 17, o que denota a gravidade do assunto”, referiu ainda.
O médico sublinhou que “no princípio é difícil dizer que é uma hepatite aguda, para se ter a certeza é necessário fazer análises ao fígado”, mas “eu não colocaria as pessoas em pânico”.
“Os pais, avós e cuidadores normalmente estão muito atentos às crianças e à mínima coisa são tratados. Os pais são bons pais. Por isso não vale a pena irem todos a correr às urgências para fazerem análises ao fígado”, alertou.
Rui Tato Marinho “preferia que (o surto) não existisse”, mas não considera provável que Portugal escape, uma vez que a doença já se espalhou por tantos países da Europa, inclusive no país vizinho. “Agora não há hipótese de fugir, se já está em Espanha não é nada impossível que venha para Portugal”, afirmou.
Sintomas a que deve estar atento:
A hepatite de origem desconhecida é, como o próprio nome indica, para já um mistério para a comunidade médica. As informações até ao momento são escassas, mas há dois sintomas a que os pais devem estar atentos.
“É um processo muito completo quando aparece uma doença cujo agente nós não conhecemos. Nem sequer temos neste momento a certeza de ser uma doença transmissível, porque o padrão epidemiológico não é muito claro”, refere a virologista Laura Brum, em declarações à ‘SIC Notícias’.
Segundo a responsável, “tudo isto ainda é muito precoce e estamos na fase de juntar informação”, mas já é possível perceber alguns sintomas mais específicos da doença, a que os pais devem prestar especial atenção.
“Para além dos sintomas gastrointestinais, como diarreia e vómitos, esta hepatite caracteriza-se por icterícia, cor amarelada da pele e dos olhos, e pelas fezes poderem estar mais esbranquiçadas/descoloradas”, sublinha. “São dois sinais que é importante os pais estarem mais vigilantes nesta situação”, conclui.













