Cientistas franceses confirmam: respiramos até 108 mil microplásticos por dia dentro de casa

Um novo estudo científico está a reforçar uma preocupação crescente sobre a poluição invisível nos ambientes fechados: a presença de microplásticos no ar doméstico.

Pedro Zagacho Gonçalves

Um novo estudo científico está a reforçar uma preocupação crescente sobre a poluição invisível nos ambientes fechados: a presença de microplásticos no ar doméstico. A investigação, liderada pelo biogeoquímico Jeroen Sonke, do Centro Nacional de Investigação Científica de França, estima que um adulto pode inalar diariamente entre 28.000 e 108.000 partículas de microplásticos dentro de casa.

O estudo altera a perceção tradicional sobre a exposição a estas partículas, demonstrando que não se trata apenas de ingestão através da alimentação ou da água, mas também de inalação contínua em espaços interiores.

O ar dentro de casa pode ser mais contaminado do que o exterior
Os investigadores sublinham que a vida moderna expõe as pessoas a uma permanência prolongada em ambientes fechados. Em países desenvolvidos, cerca de 90% do tempo é passado em interiores, o que aumenta significativamente a exposição a partículas em suspensão.

Estudos realizados na China já tinham mostrado que a concentração de microplásticos em ambientes interiores pode ser até oito vezes superior à registada no exterior. Em medições feitas em habitações na cidade de Toulouse, em França, foram encontrados mais de 500 fragmentos por metro cúbico de ar. No interior de automóveis, esse valor ultrapassou os 2.200 fragmentos.

O pó doméstico é uma das principais fontes de exposição
Grande parte dos microplásticos presentes no ar acumula-se no pó doméstico, que é facilmente reintroduzido no ambiente através de atividades diárias como caminhar, sentar-se ou limpar a casa.

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A exposição pode ser ainda mais significativa em bebés que gatinharem, podendo inalar entre 19.000 e 75.000 partículas por dia devido à proximidade com o chão, onde o pó se concentra.

As principais fontes destes microplásticos são materiais comuns do quotidiano, como roupa sintética (poliéster e nylon), sofás e estofos, tapetes, cortinas e roupa de cama. Segundo Stephanie Wright, do Imperial College London, “o desgaste diário destes materiais gera microplásticos constantemente”.

Eletrodomésticos ajudam, mas também podem contribuir para o problema
A presença de microplásticos em casa não depende apenas dos materiais, mas também do uso de eletrodomésticos. As máquinas de lavar roupa libertam microfibras para a água, embora existam filtros capazes de reduzir até 90% destas partículas. As máquinas de secar podem libertar partículas diretamente para o ar interior.

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As aspiradoras ajudam a remover o pó, mas podem também redistribuir partículas no ar durante a limpeza. Por outro lado, os filtros HEPA são apontados como uma das soluções mais eficazes, sendo capazes de eliminar até 99,97% das partículas de 0,3 micrómetros, e mais de 99% de nanopartículas em alguns casos.

Já os sistemas de ar condicionado podem acumular e redistribuir microplásticos, contribuindo para a sua presença contínua no ambiente doméstico.

Impactos na saúde ainda não totalmente compreendidos
Apesar da crescente evidência científica, os efeitos dos microplásticos na saúde humana ainda não estão completamente esclarecidos. Estudos indicam que estas partículas podem acumular-se nos pulmões, provocar inflamação e, no caso das partículas mais pequenas, penetrar em células do organismo.

Experiências realizadas em animais demonstraram que os microplásticos podem atingir órgãos como o fígado, rins e até o cérebro em poucos dias. Além disso, estas partículas podem transportar substâncias químicas e bactérias, aumentando potencialmente os riscos associados à exposição.

De acordo com Annelise Adrian, do Fundo Mundial para a Natureza, “as fibras são especialmente preocupantes porque retêm toxinas e permanecem mais tempo no organismo”.

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Como reduzir a exposição aos microplásticos em casa
Os especialistas sublinham que não é possível eliminar totalmente a exposição, mas existem medidas que ajudam a reduzi-la. Entre elas estão a ventilação diária dos espaços, o uso de aspiradoras com filtro HEPA e a limpeza com panos húmidos antes de aspirar.

Recomenda-se também lavar a roupa apenas quando necessário, evitar o uso de secadoras sempre que possível e dar preferência a tecidos naturais como algodão, linho ou lã. A instalação de filtros em máquinas de lavar pode igualmente reduzir a libertação de microfibras.

Apesar das medidas individuais poderem diminuir a exposição, os investigadores alertam que o problema é estrutural. A produção global de plástico ultrapassa atualmente as 460 milhões de toneladas por ano, o que significa que a presença de microplásticos no ambiente continuará a aumentar sem mudanças profundas na produção e utilização destes materiais.

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