Cientistas descobrem um planeta com uma atmosfera semelhante à da Terra… mas carregada de metais

Planeta, apelidado de WASP-189b, tem uma atmosfera complexa à semelhança do nosso planeta mas abundam metais como o ferro, crómio, magnésio e vanádio

Francisco Laranjeira

Há um mundo com uma atmosfera com camadas semelhantes às da Terra, embora talvez seja um pouco quente demais para o gosto humano. O planeta, apelidado de WASP-189b, não é uma descoberta nova. Os cientistas já sabiam que o mundo, a cerca de 322 anos-luz da Terra, é um gigante gasoso que orbita a sua estrela 20 vezes mais perto do que a Terra do Sol, tornando-o um mundo sufocante. Mas um estudo, publicado na revista ‘Nature Astronomy’, revelou os primeiros indícios de que o corpo celeste possui uma atmosfera tão complexa quanto a nossa.

“No passado, os astrónomos frequentemente assumiam que as atmosferas dos exoplanetas existiam como uma camada uniforme”, referiu Jens Hoeijmakers, astrofísico do Observatório de Lund, na Suécia, coautor da nova pesquisa. “Mas os nossos resultados demonstram que mesmo as atmosferas de planetas gasosos gigantes intensamente irradiados têm estruturas tridimensionais complexas.”

A pesquisa baseou-se na análise da luz da estrela do planeta, WASP-189, à medida que o mundo passou à sua frente, usando especificamente observações recolhidas em 2019 pelo instrumento ‘High Accuracy Radial Velocity Planet Searcher’ (HARPS), no Observatório La Silla, no Chile, durante três passagens diferentes do planeta em frente à sua estrela. Uma observação ao anel de luz imediatamente ao redor da sombra do planeta permitiu aos cientistas estudar a atmosfera sem a ver diretamente. Nesta técnica, os investigadores determinam primeiro quais os comprimentos de onda da luz das estrelas não atingem o instrumento e depois identificam que substâncias químicas absorvem essa “impressão digital” característica da luz.

O HARPS não pode distinguir diretamente como os produtos químicos são organizados dentro da atmosfera mas as impressões digitais químicas detetadas são influenciadas pelo mesmo efeito Doppler – na sua análise, foram encontrados efeitos Doppler ligeiramente diferentes entre produtos químicos distintos, sugerindo que eles estavam a mover-se de forma diferente pela atmosfera e, como tal, revelador de uma estrutura complexa.

“Acreditamos que ventos fortes e outros processos podem gerar essas alterações”, disse Bibiana Prinoth, principal autora do estudo e doutoranda na Universidade de Lund, em comunicado. “E como as impressões digitais de diferentes gases foram alteradas de maneiras diferentes, achamos que isso indica que elas existem em diferentes camadas – da mesma forma que as impressões digitais de vapor de água e azono na Terra parecem alteradas de maneira diferente à distância, porque ocorrem principalmente em diferentes camadas atmosféricas.”

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Na atmosfera de WASP-189b, de acordo com o novo estudo, há um punhado de metais diferentes – ferro, crómio, magnésio e vanádio. Embora geralmente não se pense em metais como sendo gasosos, dadas as temperaturas em WASP-189b acaba por não ser surpreendente. A estrela do planeta é particularmente quente e o planeta está tão perto da estrela que leva apenas 2,7 dias terrestres para orbitar, de acordo com pesquisas anteriores.

“Estamos convencidos de que, para poder entender completamente esses e outros tipos de planetas – incluindo aqueles mais semelhantes à Terra – precisamos apreciar a natureza tridimensional de suas atmosferas”, apontou Kevin Heng, astrofísico da Universidade de Berna e coautor da nova pesquisa. As esperanças estão agora concentradas no recém-lançado Telescópio Espacial James Webb, equipado para fazer esse tipo de trabalho de ‘detetive’ atmosférico.

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