Cientistas descobrem o ‘calcanhar de Aquiles’ da Gronelândia que pode fazer Trump repensar a compra

Novo estudo detetou uma base composta por terra fina e areia sob grande parte da camada de gelo da Gronelândia, um fator que facilita o deslizamento dos glaciares, acelera a sua fragmentação e contribui para a perda de gelo para o oceano

Francisco Laranjeira
Janeiro 21, 2026
12:21

Cientistas identificaram uma fragilidade geológica escondida sob a vasta camada de gelo da Gronelândia que pode acelerar o seu colapso e tornar ainda mais complexas as ambições estratégicas e económicas dos EUA no Ártico. A descoberta revela a presença de uma extensa camada de sedimentos sob o gelo, tornando a região menos estável do que se pensava.

De acordo com o ‘Daily Mail’, um novo estudo detetou uma base composta por terra fina e areia sob grande parte da camada de gelo da Gronelândia, um fator que facilita o deslizamento dos glaciares, acelera a sua fragmentação e contribui para a perda de gelo para o oceano.

Os investigadores concluíram que a camada de gelo não está ancorada diretamente numa base rochosa sólida, como se assumia em muitos modelos. Em vez disso, os sedimentos reduzem o atrito, sobretudo quando a água do degelo se infiltra, permitindo que massas de gelo com enormes dimensões se desloquem com maior facilidade.

A investigadora Yan Yang, da Universidade da Califórnia em San Diego, explicou que esta camada de sedimentos pode atingir cerca de 198 metros de profundidade em várias zonas sob o gelo da Gronelândia. O estudo, publicado na revista científica ‘Geology’, indica que estas camadas não estão distribuídas de forma uniforme, variando entre cerca de 4,5 metros e aproximadamente 300 metros em algumas áreas.

Impacto no nível do mar e nos modelos climáticos

A investigação sugere que esta fragilidade geológica poderá estar a contribuir para a aceleração da subida do nível médio do mar à escala global. Segundo o ‘Daily Mail’, os cientistas alertam que algumas regiões da Gronelândia podem ser mais vulneráveis às alterações climáticas do que os modelos atuais pressupõem, sobretudo nas zonas onde a base do gelo é mais quente e húmida.

Yan Yang advertiu que, à medida que mais água de degelo alcança o leito glaciar, os sedimentos podem reduzir ainda mais a resistência, acelerando o fluxo do gelo e aumentando a quantidade de gelo perdida para o oceano.

Recursos naturais e riscos para a exploração

A descoberta tem também implicações diretas na exploração de recursos naturais sob o gelo da Gronelândia, incluindo petróleo, ouro, grafite, cobre, ferro e elementos de terras raras. A presença de sedimentos espessos pode atrasar significativamente as perfurações e criar condições perigosas, sobretudo devido ao colapso e desprendimento de glaciares.

Estudos anteriores indicam que a perfuração segura exige uma base rochosa estável e congelada. Investigações publicadas em 2022 e 2024 alertaram que a perfuração através de sedimentos subglaciais e camadas de argila pode atrasar operações, danificar equipamentos e tornar inviáveis campanhas de extração em larga escala.

Dimensão geopolítica da descoberta

A revelação surge num contexto de crescente interesse estratégico na Gronelândia. O governo de Donald Trump voltou recentemente a defender que o território deveria passar para controlo dos Estados Unidos, argumentando que a Dinamarca não teria capacidade para o proteger da influência da Rússia e da China.

Apesar de a Gronelândia ser um território autónomo sob soberania dinamarquesa, um acordo de 1941 já permitiu a presença militar americana na ilha. Os Estados Unidos operaram várias bases na região ao longo das últimas décadas, enquanto a China se declarou, em 2018, um “estado quase ártico”, justificando assim os seus interesses económicos e estratégicos na zona.

Como os cientistas chegaram à conclusão

Para identificar a camada de sedimentos, os investigadores analisaram dados recolhidos ao longo de duas décadas por 373 estações de monitorização sísmica espalhadas pela Gronelândia. As equipas estudaram a forma como as vibrações sísmicas se propagavam através do gelo e do solo subjacente, procurando atrasos nos sinais que indicassem a presença de uma camada macia entre o gelo e a rocha.

A comparação entre os dados reais e modelos computacionais permitiu mapear a localização e a espessura dos sedimentos necessários para explicar os desvios nas leituras sísmicas, confirmando a existência deste “calcanhar de Aquiles” sob a camada de gelo da Gronelândia.

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