A corrente do Atlântico — um dos principais sistemas de circulação oceânica do planeta, responsável por transportar calor para o Hemisfério Norte — está em risco de colapso, alertaram esta semana cientistas da Universidade da Califórnia, em Riverside. Segundo a equipa, o sistema conhecido como Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico (AMOC, na sigla em inglês) tem vindo a enfraquecer de forma contínua há mais de um século, e poderá ruir por completo se as emissões de gases com efeito de estufa continuarem a aumentar.
Os investigadores publicaram os resultados no Communications Earth & Environment, afirmando ter encontrado a primeira evidência física inequívoca da diminuição da força desta “correia transportadora” do oceano. “Este trabalho demonstra que a AMOC tem estado a enfraquecer há mais de 100 anos”, afirmou o professor Wei Liu, autor principal do estudo. “Essa tendência deverá manter-se se os gases com efeito de estufa continuarem a aumentar.”
A AMOC transporta águas quentes e salgadas das regiões tropicais para o Atlântico Norte, onde libertam calor, arrefecem, tornam-se mais densas e afundam, regressando depois para o Sul em profundidade. Este mecanismo é fundamental para manter os climas amenos em vastas regiões da Europa, do Reino Unido e da costa leste dos Estados Unidos. Um colapso do sistema poderia mergulhar estas zonas numa espécie de mini era do gelo. Alguns cenários apontam para que o Reino Unido possa enfrentar temperaturas de até -30 °C.
A “mancha fria” como prova do enfraquecimento
A chave para as novas conclusões da equipa da Califórnia está numa enigmática “mancha fria” de cerca de 1600 quilómetros de largura, localizada a sul da Gronelândia e da Islândia — uma região de águas inexplicavelmente mais frias que resistiram ao aquecimento global durante mais de um século.
Durante anos, cientistas debateram-se com a origem deste fenómeno, que não era explicável pelos modelos climáticos existentes. A nova investigação mostra que a mancha está directamente associada ao enfraquecimento da AMOC. “As pessoas perguntavam-se porque razão esta zona fria existia; descobrimos que a explicação mais provável é o enfraquecimento da AMOC”, explicou Wei Liu.
A equipa analisou um século de registos de temperatura e salinidade do Atlântico. Estas variáveis são cruciais para avaliar a força da circulação. Menor salinidade e menor calor à superfície no Atlântico Norte são sinais inequívocos de uma AMOC mais fraca. Os investigadores compararam ainda os dados históricos com quase 100 modelos climáticos, tendo verificado que apenas os cenários com AMOC enfraquecida conseguiam reproduzir a mancha fria observada. “É uma correlação muito robusta”, afirmou Liu.
Até agora, alguns especialistas atribuíram este fenómeno a factores atmosféricos, como a poluição por aerossóis. Contudo, as novas simulações demonstram que essa explicação não é compatível com as medições reais.
Impactos globais severos
Apesar de a ideia de um colapso total da AMOC evocar cenários de filmes de Hollywood, como O Dia Depois de Amanhã, os cientistas garantem que uma mudança abrupta em poucos dias não irá ocorrer. “Se a AMOC atingir um ponto de viragem, isso ocorrerá ao longo de várias décadas, pelo menos”, sublinhou Penny Holliday, chefe de física marinha e circulação oceânica no Centro Nacional de Oceanografia em Southampton. Ainda assim, um abrandamento gradual poderá desencadear fenómenos meteorológicos extremos, capazes de provocar vítimas mortais e elevados danos materiais.
Professor David Thornalley, climatólogo da University College London, sublinhou: “Um colapso da AMOC poderia originar mais fenómenos meteorológicos extremos, além de temperaturas globais mais frias do que a média. Esperamos também mais tempestades de inverno, impulsionadas por ventos de oeste mais intensos.”
Os impactos não se limitariam ao Hemisfério Norte. Uma AMOC enfraquecida alteraria a distribuição da precipitação tropical, afectando de forma dramática a agricultura e o abastecimento de água em muitas regiões do mundo. “Milhões de pessoas seriam afectadas por secas, fomes e inundações, em zonas já vulneráveis. Veríamos um aumento dos refugiados climáticos e das tensões geopolíticas”, alertou Thornalley.
O professor Jonathan Bamber, da Universidade de Bristol, reforçou: “Se a AMOC colapsar, o clima do noroeste da Europa seria irreconhecível. As temperaturas cairiam vários graus e os invernos tornar-se-iam semelhantes aos do Ártico canadiano. Seriam invernos muito rigorosos, com risco de vida.”
Reino Unido poderá enfrentar invernos polares
Um estudo divulgado na semana passada por outra equipa científica prevê que um colapso da AMOC poderá fazer as temperaturas em algumas zonas da Escócia descer até aos -30 °C. Em Edimburgo, por exemplo, quase metade do ano poderia ter mínimas abaixo de zero. Londres poderia enfrentar extremos de -19 °C e registar mais de dois meses adicionais de dias com temperaturas negativas, em comparação com o final do século XIX.
A “correia transportadora” da AMOC depende de um delicado equilíbrio de salinidade e temperatura, fortemente afectado pelo degelo das calotes polares. O aumento do volume de água doce no Atlântico Norte, devido à fusão acelerada dos glaciares da Gronelândia, está a reduzir a densidade da água, dificultando o seu afundamento e, por consequência, abrandando todo o sistema.
Professor Liu destacou ainda: “O impacto global sobre os ecossistemas e os padrões climáticos, tanto no Árctico como em todo o planeta, poderá ser muito severo.”
A comunidade científica considera agora que estas novas evidências — a anómala mancha fria do Atlântico — reforçam as previsões climáticas futuras, em especial para a Europa, onde a influência da AMOC é mais acentuada.














