Chumbo, alumínio, mercúrio (entre outros…): cereais e pastelaria expõem crianças a metais pesados, alerta estudo francês

Relatório, conhecido como EAT3 e integrado no programa ‘Total Diet Study’ (TDS3), conclui que o cádmio, o alumínio e o mercúrio representam riscos relevantes para a saúde, enquanto o chumbo e a acrilamida — composto que se forma quando os alimentos são cozinhados a altas temperaturas — também suscitam preocupações

Francisco Laranjeira

Cereais de pequeno-almoço, pastelaria, pão, peixe e até batatas fritas estão entre os alimentos do dia a dia que podem expor crianças a níveis elevados de metais pesados e acrilamida. O alerta é lançado por um novo estudo da Agência Francesa para a Segurança Alimentar, Ambiental e no Trabalho (ANSES), divulgado pela ‘Euronews’.

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O relatório, conhecido como EAT3 e integrado no programa ‘Total Diet Study’ (TDS3), conclui que o cádmio, o alumínio e o mercúrio representam riscos relevantes para a saúde, enquanto o chumbo e a acrilamida — composto que se forma quando os alimentos são cozinhados a altas temperaturas — também suscitam preocupações.

Segundo a ‘Euronews’, os investigadores recolheram mais de 700 amostras de alimentos entre maio de 2021 e agosto de 2022 em supermercados e mercados das regiões de Hérault, Loiret e Puy-de-Dôme, em França. As amostras representavam mais de 90% da dieta típica francesa e foram preparadas como seriam consumidas antes de serem analisadas quanto à presença de contaminantes. Posteriormente, os resultados foram cruzados com dados de consumo alimentar para estimar a exposição da população.

Os dados revelam que o cádmio foi encontrado sobretudo em cereais de pequeno-almoço, o alumínio em pastelaria e bolachas doces, o chumbo no pão, o mercúrio no peixe e a acrilamida em batatas fritas e salteadas. Embora as concentrações médias de alguns metais tenham diminuído face a estudos anteriores, certos alimentos continuam a ser fontes significativas de exposição.

No caso do cádmio, entre 23% e 27% das crianças com mais de três anos ultrapassaram a dose diária tolerável. De acordo com a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA), este metal pode afetar a função renal. Já 76% das crianças estiveram expostas ao alumínio acima do valor de referência toxicológico, comparando com 39% dos adultos.

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O mercúrio mantém-se particularmente associado ao consumo de peixe, sobretudo espécies predadoras como o atum, que acumulam maiores concentrações de metilmercúrio. Ainda assim, os investigadores sublinham que o consumo de peixe tem benefícios nutricionais importantes, recomendando duas porções por semana, incluindo uma de peixe gordo, com diversidade de espécies e origens.

A exposição ao chumbo diminuiu em relação a estudos anteriores — 27% nas crianças e 49% nos adultos — resultado atribuído a políticas públicas como a eliminação da gasolina com chumbo e a substituição de canalizações antigas. Contudo, o pão, os legumes e, no caso dos adultos, as bebidas alcoólicas continuam a contribuir para a exposição.

Também a acrilamida apresentou redução em alguns alimentos-chave, como o café, mas os níveis globais permanecem elevados. Este composto é classificado como potencialmente cancerígeno e forma-se sobretudo em alimentos ricos em amido submetidos a temperaturas elevadas.

As conclusões do estudo francês inserem-se num contexto europeu mais amplo. Segundo a EFSA, metais pesados como arsénio, cádmio, chumbo e mercúrio continuam a ser encontrados em diversos alimentos, especialmente produtos do mar. O arsénio inorgânico, em particular, está associado a lesões cutâneas, cancro, problemas cardiovasculares e alterações metabólicas.

A ANSES indicou que novas partes do estudo serão publicadas nos próximos anos, com recomendações específicas para reduzir a exposição a diferentes grupos de contaminantes. Para já, o retrato traçado aponta para uma realidade preocupante: mesmo numa alimentação considerada comum e equilibrada, as crianças continuam a ser o grupo mais vulnerável à exposição cumulativa a substâncias potencialmente tóxicas.

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