“Chinamaxxing”: porque há jovens ocidentais a olhar para a China como alternativa ao Ocidente

Uma nova tendência digital conhecida como “Chinamaxxing” está a ganhar popularidade nas redes sociais e a moldar a forma como muitos utilizadores olham para a China.

Pedro Zagacho Gonçalves

Uma nova tendência digital conhecida como “Chinamaxxing” está a ganhar popularidade nas redes sociais e a moldar a forma como muitos utilizadores olham para a China. Impulsionado por vídeos virais que mostram carros elétricos de luxo, apartamentos impressionantes, tecnologia avançada, cidades modernas e um aparente elevado nível de bem-estar, o fenómeno apresenta uma visão extremamente positiva do país asiático. Especialistas alertam, contudo, que esta narrativa tende a ignorar aspetos mais complexos da realidade chinesa, incluindo desigualdades económicas, censura, vigilância estatal e desafios sociais.

A tendência tem sido alimentada por influenciadores com centenas de milhares de seguidores que partilham conteúdos sobre a vida quotidiana na China. Alguns exibem moradias luxuosas e empreendimentos imobiliários apresentados como acessíveis, enquanto outros destacam veículos elétricos de última geração, sistemas digitais avançados ou hábitos de vida considerados saudáveis. Em muitos casos, os vídeos acumulam milhões de visualizações e reforçam a ideia de uma sociedade moderna, eficiente, segura e tecnologicamente superior. No entanto, informações essenciais sobre custos, rendimentos médios ou condições económicas raramente acompanham estas publicações.

Os dados disponíveis revelam uma realidade mais complexa. Embora a China tenha registado um forte desenvolvimento económico e tecnológico nas últimas décadas, a prosperidade mostrada nos vídeos não corresponde necessariamente à experiência da maioria da população. O rendimento disponível médio per capita em 2025 situou-se nos 43.377 yuans anuais, cerca de 5.500 euros, enquanto alguns dos automóveis frequentemente promovidos pelos criadores de conteúdos custam aproximadamente 320.000 yuans, o equivalente a cerca de 40.000 euros. Especialistas sublinham também as disparidades entre zonas urbanas e rurais, incluindo diferenças significativas nas pensões de reforma e no acesso a cuidados de saúde.

Analistas consideram que o “Chinamaxxing” representa uma nova fase da perceção ocidental sobre a China. Shiany Pérez-Cheng, especialista em manipulação informativa e influência chinesa, descreve o fenómeno como uma espécie de “novo orientalismo”, em que utilizadores ocidentais projetam sobre a China as suas expectativas, frustrações e desejos relacionados com modernidade, prosperidade e estabilidade. Segundo a analista, não existem provas de que esta vaga de conteúdos seja coordenada diretamente por Pequim, mas o seu crescimento pode contribuir para gerar perceções mais favoráveis sobre o país numa altura em que muitos jovens demonstram desilusão com os modelos políticos e económicos ocidentais.

Uma análise semelhante é apresentada por Alicja Bachulska, investigadora do European Council on Foreign Relations, que considera que esta tendência pode transformar-se num novo instrumento de “soft power” para a China. A investigadora argumenta que muitos jovens veem nos conteúdos virais aquilo que sentem faltar nos seus próprios países: infraestruturas modernas, segurança, organização, habitação acessível e perspetivas de futuro. Segundo Bachulska, o risco reside no facto de esta visão contribuir para suavizar a imagem de um Estado que continua a ser descrito por muitos observadores como autoritário, altamente centralizado e marcado por fortes mecanismos de controlo político e social.

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Outros especialistas defendem que o crescimento do “Chinamaxxing” reflete igualmente um desconhecimento generalizado sobre a realidade chinesa. A académica Pan Wang considera que a tendência vai além da simples admiração cultural e está ligada à influência crescente dos algoritmos e dos criadores de conteúdos na formação da opinião pública. Perante este fenómeno, vários investigadores defendem mais jornalismo especializado, maior literacia mediática e uma compreensão mais aprofundada da China, alertando que as imagens virais de luxo, inovação tecnológica e prosperidade não retratam necessariamente toda a complexidade económica, política e social do país.

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