China ri-se da Volkswagen por usar tecnologia que a própria marca chamou “obsoleta”

A apresentação de um novo SUV elétrico da Volkswagen no mercado chinês desencadeou uma reação inesperadamente dura por parte de um rival local

Automonitor

A apresentação de um novo SUV elétrico da Volkswagen no mercado chinês desencadeou uma reação inesperadamente dura por parte de um rival local. Segundo o ‘L’Automobile Magazine’, um executivo da fabricante chinesa Li Auto utilizou as redes sociais para ridicularizar a tecnologia adotada pelo grupo alemão, classificando-a como ultrapassada.

A polémica surgiu após o lançamento do Volkswagen ID. ERA 9X, um grande SUV familiar desenvolvido pela joint venture entre a Volkswagen e a SAIC Motor para o mercado chinês. O modelo introduz na gama da marca uma tecnologia até agora ausente nos seus veículos: o sistema elétrico com extensor de autonomia, conhecido como EREV (Extended Range Electric Vehicle).

A reação da Li Auto foi particularmente mordaz. Um dos executivos da empresa comentou publicamente que era impressionante a Volkswagen conseguir produzir em massa, “em apenas seis anos”, uma tecnologia que considerou obsoleta, prejudicial ao ambiente e com potencial de desenvolvimento limitado.

O comentário ganhou ainda mais atenção porque veio de um nome relevante da indústria automóvel chinesa e surgiu num momento em que o mercado local se tornou um dos mais competitivos do mundo na mobilidade elétrica.

O ID. ERA 9X é um SUV de grandes dimensões com seis lugares e proporções próximas de um modelo de luxo. Mede 5,207 metros de comprimento, 1,997 metros de largura e 1,810 metros de altura, com uma distância entre eixos de 3,07 metros, aproximando-se mais de um Range Rover do que dos SUV elétricos compactos da gama ID vendidos na Europa.

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No interior, o modelo aposta numa abordagem tecnológica e orientada para o conforto. A cabina inclui uma configuração de seis lugares (2+2+2), um painel com duas telas de 15,6 polegadas e um ecrã adicional de 21,4 polegadas no teto destinado aos passageiros traseiros. A iluminação ambiente recorre a quase 13 metros de faixas LED distribuídas pelo habitáculo.

No entanto, a característica que gerou maior debate encontra-se sob o capô. O SUV utiliza um sistema elétrico com extensor de autonomia: as rodas são sempre movidas por motores elétricos, enquanto um motor a gasolina de 1,5 litros funciona apenas como gerador para recarregar a bateria quando esta está quase descarregada.

Esse motor pertence à família EA211 da Volkswagen e desenvolve cerca de 143 cavalos (105 kW). Ao contrário de um híbrido convencional, não transmite potência diretamente para as rodas, servindo exclusivamente para produzir eletricidade.

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O modelo será disponibilizado em várias configurações, incluindo versões com tração traseira e uma variante com tração integral e dois motores elétricos que podem atingir cerca de 517 cavalos (380 kW). O SUV poderá utilizar baterias de 51,1 kWh ou 65,2 kWh.

Com a bateria maior, a autonomia elétrica poderá ultrapassar 400 quilómetros no ciclo chinês CLTC, o que corresponderia aproximadamente a 340 quilómetros no ciclo europeu WLTP. Com o apoio do gerador a gasolina, a autonomia total poderá superar 1.000 quilómetros.

A crítica da Li Auto ganhou ainda mais impacto porque a própria Volkswagen criticou esta tecnologia no passado. Recorda o ‘L’Automobile Magazine’ que, em 2020, responsáveis da Volkswagen na China afirmaram que os veículos elétricos com extensor de autonomia tinham potencial de desenvolvimento limitado e eram prejudiciais para o ambiente.

Na altura, modelos ocidentais com este conceito eram raros e incluíam exemplos como o Fisker Karma, o Chevrolet Volt ou o Opel Ampera, que nunca alcançaram grande sucesso comercial.

Entretanto, o cenário mudou significativamente no mercado chinês. Os veículos elétricos com extensor de autonomia estão a crescer rapidamente e já representam uma fatia relevante das vendas de automóveis eletrificados no país.

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A Li Auto foi uma das marcas que apostou cedo nesta tecnologia. O seu SUV Li One chegou mesmo a superar, em determinados momentos, as vendas combinadas de vários modelos SUV da Volkswagen no mercado chinês.

O episódio reflete também um fenómeno mais amplo na indústria automóvel: a crescente vantagem das marcas chinesas na adaptação rápida às preferências do mercado local.

Enquanto fabricantes chineses ajustaram rapidamente as suas estratégias para responder à procura por maior autonomia e flexibilidade energética, a Volkswagen demorou quase seis anos entre criticar esta tecnologia e lançar o seu primeiro modelo com sistema EREV.

Ainda assim, o grupo alemão poderá continuar a apostar neste conceito. Projetos semelhantes poderão surgir noutros mercados nos próximos anos, incluindo nos Estados Unidos, onde a marca Scout Motors planeia lançar veículos elétricos com extensor de autonomia a partir de 2027.

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