China está a mapear fundo do mar junto a aliados dos EUA para preparar envio de submarinos nucleares, alerta especialista

A embarcação científica chinesa Tan Suo Yi Hao tem sido monitorizada por autoridades australianas por alegadamente realizar missões de levantamento oceânico em zonas próximas da Austrália e Nova Zelândia, com possíveis objetivos militares.

Pedro Gonçalves

A embarcação científica chinesa Tan Suo Yi Hao tem sido monitorizada por autoridades australianas por alegadamente realizar missões de levantamento oceânico em zonas próximas da Austrália e Nova Zelândia, com possíveis objetivos militares.

A presença do navio de investigação científica chinês Tan Suo Yi Hao nas águas do Oceano Índico, próximo da costa ocidental da Austrália, está a levantar preocupações quanto ao real propósito da missão. De acordo com o analista Ray Powell, diretor da organização SeaLight, afiliada à Universidade de Stanford, a embarcação poderá estar a recolher dados do fundo marinho para apoiar futuras operações com submarinos chineses, incluindo os de propulsão nuclear.



O Tan Suo Yi Hao, operado pelo Instituto de Ciência e Engenharia do Mar Profundo da Academia Chinesa de Ciências, é uma plataforma avançada dedicada à exploração oceânica. No entanto, segundo Powell, as atividades recentes da embarcação indicam um padrão de navegação e paragens que apontam para um levantamento detalhado da Fossa Diamantina, a sudoeste da Austrália, com uma profundidade máxima de 8.047 metros.

“O navio interrompeu a viagem duas vezes sobre esta região profunda, o que pode sugerir o lançamento de submersíveis capazes de descer até 10 mil metros de profundidade”, explicou Powell, através da rede social X (antigo Twitter).

Para o analista, o objetivo mais evidente para esta presença chinesa em zonas profundas ao largo da Austrália e Nova Zelândia será “facilitar o destacamento da sua força submarina em localizações estratégicas”. Entre estas embarcações estão submarinos armados com mísseis nucleares, o que reveste a missão de um claro interesse estratégico e militar.

Trânsito monitorizado pelas autoridades australianas
Num comunicado enviado à revista Newsweek, o Ministério da Defesa da Austrália confirmou que o Tan Suo Yi Hao se encontrava, na terça-feira passada, a cerca de 737 milhas náuticas a sudoeste de Perth, capital da Austrália Ocidental. As autoridades garantem que não foram observadas atividades de investigação científica ou levantamento de dados marítimos dentro da Zona Económica Exclusiva (ZEE) australiana.

“As Forças de Defesa australianas monitorizaram o Tan Suo Yi Hao durante a sua passagem a sul da Austrália e enquanto permaneceu nas nossas aproximações marítimas”, declarou um porta-voz do Ministério da Defesa.

A Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar estabelece que qualquer investigação científica marinha dentro da ZEE de um Estado costeiro requer o consentimento prévio desse Estado. O Ministério da Defesa australiano afirma que, até ao momento, todas as ações do navio chinês ocorreram fora da ZEE, não violando, por isso, o direito internacional.

Percurso evita rota direta de regresso à China
Segundo Powell, o navio não está a seguir a rota mais direta para regressar à China, onde é esperado a 30 de abril. A embarcação passou pela Grande Baía Australiana e navegou ao largo da costa sul do país, numa trajetória incomum que, segundo o analista, reforça a hipótese de estar a recolher dados estratégicos ao longo do caminho.

Antes de se aproximar da Austrália, o Tan Suo Yi Hao participou, entre janeiro e março, numa expedição científica conjunta com investigadores neozelandeses na Fossa de Puysegur, que atinge os 6.208 metros de profundidade, a sudoeste da Nova Zelândia.

Tanto a Austrália como a Nova Zelândia são membros da aliança de partilha de informações de inteligência Five Eyes, liderada pelos Estados Unidos, o que atribui uma relevância adicional à eventual recolha de dados sensíveis nesta região do Pacífico.

Reações oficiais: investigação ou provocação?
A Embaixada da China na Austrália emitiu uma declaração a responder às críticas, defendendo que “nos últimos anos, a China tem conduzido expedições científicas conjuntas com vários países, contribuindo positivamente para a proteção da biodiversidade marinha global e para o desenvolvimento sustentável”. Para Pequim, “politizar ou estigmatizar estas atividades de investigação é um desrespeito pelo progresso científico mundial”.

Alex Luck, analista naval baseado na Austrália, afirmou na rede social X que “a China mantém há muito tempo um programa dedicado a alcançar as zonas marítimas mais profundas do planeta”. Segundo o especialista, estas expedições têm aplicações científicas, mas também são uma ferramenta de projeção política e reputacional enquanto potência marítima.

O movimento do Tan Suo Yi Hao surge pouco tempo depois de a China ter enviado uma flotilha para uma inédita circum-navegação da Austrália, num gesto interpretado como demonstração de força regional. Simultaneamente, os Estados Unidos responderam com o destacamento de um submarino nuclear para território australiano.

Segundo o último relatório do Pentágono, a marinha chinesa é a maior do mundo em número de embarcações, com mais de 370 navios, incluindo 12 submarinos nucleares. A presença crescente da China no Indo-Pacífico, aliada a estas missões científicas de duplo propósito, tem suscitado crescentes preocupações entre os aliados ocidentais de Washington.

O que resta saber agora é quanto tempo mais o Tan Suo Yi Hao permanecerá nestas águas e se novas ações levarão a uma escalada de tensões na já delicada disputa geoestratégica na região.

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