A China terá avisado Vladimir Putin de que a Rússia não deve usar armas nucleares na Ucrânia, afirmou Volodymyr Zelensky. A declaração do presidente ucraniano surge numa altura em que Kiev intensifica ataques contra navios russos no Mar de Azov e no Mar Negro, numa tentativa de cortar abastecimentos de combustível às forças russas e isolar a Crimeia ocupada.
Segundo o ‘The Independent’, Zelensky disse aos jornalistas que Pequim respondeu de forma direta às vozes que, nos media russos, têm defendido uma resposta nuclear aos ataques ucranianos. “Parece-me que esta foi a primeira vez que a China respondeu diretamente, quase em forma de ultimato, que não pode haver sequer a ideia de usar armas nucleares”, afirmou o presidente ucraniano. Meios ucranianos noticiaram igualmente que Zelensky descreveu o aviso chinês como uma posição categórica contra qualquer escalada nuclear russa.
A afirmação é politicamente relevante porque a China continua a ser um dos parceiros mais importantes de Moscovo desde o início da invasão em larga escala da Ucrânia. Pequim tem evitado romper com o Kremlin, mas mantém oficialmente uma doutrina nuclear de não primeiro uso, em contraste com a postura russa, que admite cenários mais amplos para o emprego de armas nucleares.
Zelensky enquadrou o aviso chinês num momento de crescente pressão militar sobre a Rússia. As forças ucranianas afirmaram ter atacado mais uma dezena de navios russos no Mar de Azov, numa campanha destinada a dificultar o transporte de combustível para a Crimeia ocupada e para as forças russas. Nos primeiros quatro dias da semana, Kiev disse ter atingido pelo menos 36 embarcações russas no Mar de Azov e no Mar Negro.
De acordo com o Ministério da Defesa ucraniano, entre os navios atingidos estavam dezenas de petroleiros da chamada “frota-sombra” russa, usada por Moscovo para contornar sanções e transportar combustível. A Reuters noticiou esta semana que drones ucranianos atingiram oito petroleiros russos ligados ao abastecimento da Crimeia, numa operação que se insere no esforço de Kiev para isolar a península anexada por Moscovo em 2014.
A campanha ucraniana contra navios, refinarias, depósitos e infraestruturas energéticas russas tem agravado a pressão sobre o abastecimento de combustível. Relatos recentes apontam para filas em postos de abastecimento, subida de preços e dificuldades logísticas em várias regiões russas, à medida que Kiev tenta enfraquecer a capacidade de Moscovo para sustentar a guerra.
A Starlink e outras redes de comunicações têm sido importantes para o uso de drones ucranianos, mas, neste caso, o foco da operação está na guerra económica e logística: impedir que combustível chegue à Crimeia e reduzir a margem de manobra das forças russas. Para Kiev, atacar a frota usada no transporte de combustível é uma forma de levar a guerra para a retaguarda russa sem depender apenas da frente terrestre.
A referência de Zelensky ao aviso chinês surge num contexto em que a retórica nuclear russa volta ciclicamente ao debate público sempre que a Ucrânia aumenta ataques de longo alcance contra território, navios ou infraestrutura russa. Ao dizer que Pequim rejeitou qualquer hipótese de uso nuclear, o presidente ucraniano procura mostrar que até parceiros de Moscovo veem essa opção como uma linha vermelha.
Ainda assim, a declaração deve ser lida com cautela. O aviso foi relatado por Zelensky, não por Pequim, e a China não confirmou publicamente os termos exatos de qualquer mensagem enviada a Putin. Mas, se a leitura ucraniana estiver correta, representa um sinal de que a China pode estar disposta a limitar pelo menos uma dimensão da escalada russa: a ameaça nuclear.
No terreno, porém, a guerra continua a intensificar-se por outros meios. Kiev aumenta ataques contra a frota e a infraestrutura energética russas; Moscovo procura proteger linhas de abastecimento e manter a pressão militar; e a Crimeia volta a ocupar um lugar central no conflito. A diferença é que, agora, Zelensky sugere que há uma barreira que nem a China quer ver ultrapassada: a entrada de armas nucleares na guerra.














