Chernozem: o ‘ouro negro’ ucraniano que Putin pretende monopolizar e assim controlar a despensa mundial

‘Chernozem’ é o novo Eldorado que a Rússia quer dominar. Mas não qualquer terra mas as terras negras, ou ‘chernozems’, da Ucrânia, que são os solos mais férteis do mundo

Francisco Laranjeira

Os solos mais férteis do planeta, um ‘milagre da biosfera’, ou os ‘Chernozem’, poderão estão no centro dos interesses de Moscovo e de Putin para monipolizar e controlar a despensa mundial – um ano antes do início da invasão russa, foi decidido realizar um referendo na Ucrânia para determinar se esses solos poderiam ser comprados por países estrangeiros, o que causou nervosismo entre as facções pró-Rússia.

‘Chernozem’ é o novo Eldorado que a Rússia quer dominar. Mas não qualquer terra mas as terras negras, ou ‘chernozems’, da Ucrânia, que são os solos mais férteis do mundo. Mas para os agricultores ucranianos são uma maldição e uma bênção. Se se, por exemplo, somar a produção da Ucrânia e da Rússia, Putin poderia monopolizar 73% da produção mundial, segundo dados do Serviço Agrícola Estrangeiro dos EUA, o que significaria um verdadeiro choque para o mercado.

A Rússia e a Ucrânia são, respetivamente, o primeiro e o quinto exportadores de cereais, garantiu esta segunda-feira o jornal espanhol ‘ABC’. Estima-se que a área global total de ‘chernozem’ ocupe apenas 7% da superfície da Terra. E a Ucrânia possui mais de um quarto das terras negras cultiváveis ​​do planeta, o que representa 56,5% da área total do país.

A ambição russa já tem um longo caminho. O historiador americano Scott Reynolds, autor do livro “Oceans of Grain”, afirmou que “a União Soviética não existia como tal até anexar a Ucrânia. E a URSS só sobreviveu enquanto teve aquele celeiro”. Reynolds também detalhou que, em 2011, Putin tentou criar um cartel de grãos com a Ucrânia e, assim como os países produtores de petróleo, “eles poderiam ter ditado os preços e restringido as exportações” mas o seu projeto fracassou.

Os especialistas enfatizaram que a dependência da Rússia com o seu mercado de petróleo e gás pode tornar-se obsoleto a longo prazo, especialmente quando a transição renovável já está em marcha. E as mudanças climáticas já afetam três quartos do território russo. Assim, o trunfo do controlo agrícola é uma aposta segura e um sector vital para o Kremlin. Mas Moscovo não quer qualquer terra, mas as do leste, que são as mais férteis da Ucrânia. Coincidentemente, estes são Donetsk e Lugansk, controlados em parte por rebeldes pró-Rússia, que têm a maior produção de trigo. E Kharkiv, Zaporizhia e Dnipropetrovsk geram mais de 20% dos grãos do país.

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No entanto, o interesse em ‘chernozems’ não é apenas um síndrome da vizinha Rússia. Antes, as empresas nacionais ucranianas ou estrangeiras, por lei, não podiam comprar terras, somente alugar. Assim, em 2020, a Ucrânia cedeu o controle de mais de 3 milhões de hectares de terras agrícolas a empresas privadas como NCH Capital, UkrLandfarming, a fundos da Arábia Saudita e China ou à empresa russa Renaissance Group.

Um ano antes da guerra, foi autorizado a venda de terras e seria decidido em 2024, em referendo, se poderia ser feito para empresas estrangeiras. O que se traduziu em milhões de hectares de ‘chernozem’ que poderiam ficar nas mãos de outros países, algo que causou o nervosismo das facções pró-Rússia na Ucrânia.

No entanto, a superexploração está a degradar o solo fértil. Segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), a Ucrânia perde 500 milhões de toneladas de solo por ano devido à erosão. Para cada tonelada de grãos produzidos, são perdidas 10 toneladas de solo. No entanto, isso não impede a ambição desenfreada. O que está claro é que estourou uma febre pelo novo ‘ouro negro’.

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