Chamam-lhe “o efeito do Google”

Por Clara Raposo, Professora de Finanças e Presidente do ISEG

 

A forma como nós, humanos, usamos as nossas capacidades tem os seus mistérios.  Certamente a evolução dos tempos tem-nos levado a alterar hábitos e a apurar e utilizar os sentidos de formas diversas. Em larga medida, são os avanços no conhecimento e a inovação tecnológica que conduzem essa alteração de hábitos e, com ela, a nossa maior ou menor utilização de certos “skills”.

Como neste último ano me tenho “super-digitalizado” (toda eu apito e estou conectada: relógio-telemóvel-laptop-earphones-tudo), faço um esforço – que é, para mim, um prazer – de manter alguma leitura em formato século XX, com um bom livro em 3D. Estou a ler um livro sobre livros e leitura, de Irene Vallejo, muito premiado na vizinha Espanha.

A páginas tantas, a autora recorda o início da alfabetização na Grécia e o (para mim inesperado) ceticismo de Sócrates quanto à mais-valia da palavra escrita: que não responde ao leitor como acontece na palavra oral durante uma conversa e que pode reduzir o verdadeiro conhecimento de uma pessoa que em vez de “saber os textos” passa apenas a tê-los disponíveis. E, mais do que trazer este pedaço de História às nossas vidas, estabelece ainda um paralelo muito interessante ao que se passa nos dias de hoje e no fenómeno da Internet e da digitalização, que passo a expor.

À boleia de Vallejo, também eu recordo a experiência de 2011 do psicólogo social D. M. Wegner, que identifica o “efeito Google na memória”. Basicamente testou-se a capacidade de memorização de dois grupos de voluntários a quem foi pedido que recordassem um conjunto significativo de informações/dados. Nesta experiência, a um dos grupos foi dito que essa mesma informação ficaria guardada num computador, enquanto ao outro grupo nada foi dito a esse respeito. Verificou-se, no final, que foi muito superior a capacidade de memorização do grupo que não sabia que havia “backup” de informação no computador, por comparação com aqueles que tinham esse dado adicional.

Com base nesta experiência podemos, então, falar no tal “efeito Google” na memória. Ao que parece, o nosso cérebro esforça-se menos em memorizar quando sabe que tem um substituto.

Desta experiência podemos tentar extrair alguns aspetos positivos: podemos libertar-nos de tarefas intelectuais que podem ser desempenhadas por máquinas (ou outras formas de inteligência, que se poderão sofisticar mais no futuro), deixando-nos o cérebro e as nossas capacidades intelectuais e até sensoriais livres para outros desafios e interesses.

Mas, por outro lado, este efeito Google pode levantar um alerta. É possível, ou provável, que estejamos a deixar muito conhecimento (e inteligência) fora dos nossos cérebros, sem sabermos exatamente de que forma ou para que é que estaremos a estimular a nossa inteligência humana e as nossas capacidades no futuro.

Da mesma forma que Sócrates receou o alfabeto e a escrita como potenciais elementos de alteração do funcionamento do nosso raciocínio, da nossa reflexão, da nossa memória e da nossa interação, devemos também hoje pensar melhor no nosso papel futuro enquanto humanos pensantes e atuantes, quando hoje talvez sejamos mais localizadores de informação do que seus conhecedores.  Na verdade, os livros trouxeram-nos muitas outras coisas e, para mim, os receios do filósofo grego foram mais do que compensados pelo benefício de comunicar ao escrever textos como este. Em livros. Ou num computador, com backup e tudo, sem eu o ter memorizado. Mas parece-me importante que reflitamos, de facto, acerca do que queremos preservar, em cada geração ou era, da nossa natureza humana. E a educação que promovemos desde crianças até adultos talvez beneficie, de facto, de uma suave transição do que é comunicação visual e oral, para uma comunicação escrita em que não percamos a motricidade fina e, só mais tarde, evoluindo para soluções tecnológicas mais “atuais”. Enfim, para pensar.

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