Centralismo e dependência do turismo e imobiliário limitam crescimento económico em Portugal, alerta investigação da FEP

Um estudo da Faculdade de Economia da Universidade do Porto alerta que a fraca coesão territorial e a especialização excessiva no turismo e no imobiliário estão a comprometer o crescimento económico de Portugal.

André Manuel Mendes

Um novo estudo da Faculdade de Economia da Universidade do Porto (FEP), desenvolvido por Óscar Afonso, diretor da instituição, e Nuno Torres, investigador e coordenador do Gabinete de Estudos Económicos, Empresariais e de Políticas Públicas (G3E2P), alerta que a fraca coesão territorial e a especialização excessiva no turismo e no imobiliário estão a comprometer o crescimento económico de Portugal.

Segundo a investigação, a concentração de poder político, económico e decisório na Área Metropolitana de Lisboa (AML) acentua desigualdades regionais e limita o desenvolvimento de um modelo económico mais equilibrado, produtivo e inclusivo. Enquanto a AML apresenta níveis de riqueza acima da média europeia, muitas regiões do interior registam indicadores de nível de vida entre os mais baixos da União Europeia.

O estudo, que analisou dados entre 2000 e 2023, conclui que Portugal perdeu posição relativa face à média europeia em termos de nível de vida, com a convergência regional a ocorrer sobretudo por empobrecimento relativo do país e não pelo crescimento das regiões mais desfavorecidas.

A Área Metropolitana do Porto (AMP), principal centro económico do Norte, tem vindo a perder nível de vida relativo, o que fragiliza o desenvolvimento local e o desempenho económico da região. Os autores destacam, contudo, que a AMP tem potencial para se afirmar como motor económico do país, desde que consiga atrair população, talento e investimento que promovam ganhos de produtividade.

Outro ponto crítico do estudo é a excessiva dependência de Portugal do turismo e do imobiliário, setores de baixo valor acrescentado e intensivos em mão de obra pouco qualificada, que contribuem de forma limitada para a inovação e o aumento sustentado da produtividade. Este modelo desvia investimento de atividades industriais e tecnológicas, com maior potencial de criação de valor.

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No domínio do investimento, entre 2009 e 2023, a AML registou um crescimento de 45,8% na Formação Bruta de Capital Fixo, próximo dos 52,3% observados na região Norte. Contudo, enquanto o Norte depende principalmente de fundos europeus, a AML beneficia da centralidade política e económica. O estudo salienta ainda que Portugal continua a não ter níveis efetivos de governação intermédia, penalizando especialmente os territórios do interior.

Os autores defendem uma revisão do modelo de desenvolvimento territorial e económico do país, incluindo a criação de polos regionais de crescimento, a reorientação do investimento público e privado, uma descentralização efetiva do Estado e a promoção de uma economia menos dependente do turismo.

O estudo baseia-se em dados oficiais do Eurostat e do Instituto Nacional de Estatística, analisando indicadores de PIB per capita em Paridade do Poder de Compra, produtividade, estrutura sectorial do Valor Acrescentado Bruto e distribuição populacional entre 2000 e 2023.

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