Centrais sindicais europeias, incluindo de Portugal, juntaram hoje mais de 11 mil pessoas em Madrid, num encontro em que alertaram que “o risco reacionário é maior do que nunca” na Europa, com ameaças aos direitos humanos e laborais.
O encontro foi organizado pela Confederação Europeia de Sindicatos, teve como anfitriãs as centrais espanholas CCOO (Comissiones Oberas) e UGT e contou com organizações sindicais de vários países, incluindo as portuguesas CGTP e UGT.
“O risco reacionário é maior do que nunca”, disse o secretário-geral das CCOO, Unai Sordo, em declarações aos jornalistas antes do início do encontro “Europa em democracia. Trabalho decente, justiça e paz”, no Palácio Vistalegre, de Madrid, uma antiga praça de touros que, segundo a organização, hoje encheram mais de 11 mil pessoas.
Os organizadores e as delegações presentes alertaram para um retrocesso ou ameaça de retrocesso inéditos em direitos sociais e laborais, serviços públicos ou direitos humanos por toda a Europa, coincidindo com o avanço da extrema-direita e que também se está a refletir nas políticas e ação da atual Comissão Europeia e outras instituições comunitárias desde as eleições de 2024 para o Parlamento Europeu.
Políticas ambientais como as que preconizava o “pacto verde” europeu estão “praticamente abandonadas”, a nível de imigração “está a institucionalizar-se o racismo”, há uma tentativa de “desregulação” no mercado laboral e no estado de bem-estar, a par de uma defesa do rearmamento que “prenuncia um regresso à austeridade”, disseram hoje dirigentes sindicais.
“É um momento de solidariedade dos trabalhadores de toda a Europa”, disse à Lusa João Barreiros, da Comissão Executiva da CGTP, que decidiu enviar uma delegação ao encontro para juntar “a voz dos trabalhadores portugueses” a esta mobilização transnacional e dar conta também “da luta que se está a desenvolver em Portugal”.
“Partilhamos muito dos objetivos desta mobilização, enquanto organização sindical, na defesa dos salários, na defesa de uma política de paz e contra o militarismo, pelo multilateralismo, pela questão da habitação e do arrendamento e da situação em que vivem hoje os jovens trabalhadores”, disse.
O dirigente da CGTP afirmou que também em Portugal e à central sindical portuguesa preocupa “o ascenso que tem havido de forças de extrema-direita, reacionárias, racistas e todo o discurso que tem crescido na sociedade contra a imigração, mas acima de tudo o discurso que tem crescido contra os trabalhadores, contra as camadas mais pobres”.
O encontro coincidiu com o dia em que em Lisboa, no parlamento, se debate o pacote laboral apresentado pelo Governo que a CGTP, lembrou João Barreiros, considera “extremamente danoso para os trabalhadores” e “um retrocesso brutal nos direitos”, nomeadamente, a nível da “precariedade, salário, horários de trabalho, facilitação dos despedimentos, ataque ao direito à greve e à organização sindical”.
No encontro esteve a ministra do Trabalho de Espanha, Yolanda Díaz, que é também dirigente do Somar, partido de esquerda que integra a coligação de governo liderada pelos socialistas.
Na conferência de imprensa inicial, os dirigentes sindicais espanhóis lembraram que Espanha fez “uma reforma laboral acordada”, que está em vigor desde 2022, que resultou de negociações na concertação social e acabou por ter o apoio dos sindicatos e das associações patronais.
Espanha é das economias europeias que mais cresce e com um dos mercados laborais que gera mais empregos, sendo que “nunca houve tanta gente a trabalhar no país”, realçaram os dirigentes sindicais espanhóis e de outros países, que atribuíram este desempenho à reforma laboral de 2022, mas também à aposta do governo nas energias renováveis.
Os sindicalistas elogiaram o processo de regularização extraordinário de imigrantes lançado este ano pelo governo espanhol, por considerarem que reconhecerá e potencialmente melhorará as condições de vida de milhares de trabalhadores.



