Milhares de católicos belgas estão a solicitar a remoção dos seus registos de batismo como resposta à indignação face à longa história de abusos sexuais e encobrimentos por parte da Igreja Católica. Entre julho de 2023 e junho de 2024, registaram-se 14.251 pedidos de “desbatismo”, um aumento drástico comparado com a média anual de cerca de 1.200.
Embora os pedidos não incluam motivos específicos, a Igreja Católica na Bélgica indicou aos media locais que acredita que este aumento se deve ao desgosto e à revolta dos fiéis perante os abusos e os esforços para ocultá-los. Estes dados foram incluídos no relatório anual da Igreja, que revelou também um crescimento preocupante nas denúncias de abusos: 218 casos reportados durante o último ano, quase cinco vezes mais que os 47 registados no período anterior.
A decisão de “desbatizar-se” é vista como uma formalização do abandono da Igreja Católica. Na Bélgica, isso implica o registo do pedido na listagem batismal, embora o ato original de batismo permaneça arquivado. O aumento significativo destes pedidos parece ter sido influenciado pelo documentário Godvergeten, transmitido em setembro de 2023, que trouxe ao público testemunhos de sobreviventes de abuso sexual clerical, incentivando mais pessoas a falarem sobre os crimes.
A Igreja Católica belga reconheceu que a maioria dos casos de abuso ocorreu nas décadas de 1950, 1960 e 1970. No entanto, a onda de revelações sobre abusos antigos e os encobrimentos de décadas gerou uma perda de confiança nas instituições religiosas e um forte desejo entre os fiéis de mostrar a sua indignação.
Enquanto alguns teólogos defendem que o batismo é um sacramento irrevogável, outros críticos afirmam que o registo de batismo é apenas um documento histórico e que deve refletir a vontade atual das pessoas.
O “desbatismo” implica consequências espirituais e sociais para os fiéis. Aqueles que optam pelo abandono oficial da Igreja Católica são vistos como apóstatas e, de acordo com as normas da Igreja, podem ser excluídos dos sacramentos, impedidos de apadrinhar batismos e até de ter um funeral católico. Para muitos, este ato representa uma renúncia pública de fé, com implicações simbólicas e pessoais de grande peso.
Este movimento de “desbatismo” não é exclusivo da Bélgica. A prática tem-se tornado mais comum na Europa, onde muitas pessoas desejam afastar-se das doutrinas da Igreja sobre temas como o aborto e os direitos LGBTQ+.
Em setembro de 2024, o Papa Francisco visitou a Bélgica, mas a sua visita foi marcada por controvérsias. Durante a sua passagem pelo país, o pontífice celebrou uma missa para 30.000 fiéis num estádio em Bruxelas, onde condenou os abusos sexuais cometidos por membros da Igreja e apelou a que estes crimes deixem de ser encobertos: “O mal não deve ser ocultado. Deve ser exposto à luz,” declarou o Papa perante os presentes.
Contudo, o primeiro-ministro belga, Alexander De Croo, numa intervenção direta e pouco usual, advertiu o Papa que “as palavras não bastam; é necessário tomar medidas concretas”. A posição do governo belga reflete a frustração crescente entre os cidadãos e líderes políticos, que exigem respostas mais fortes e efetivas da Igreja.
Durante a visita, o Papa Francisco encontrou-se ainda com 17 sobreviventes de abuso sexual, que lhe pediram a criação de um sistema universal de compensação para as vítimas. Contudo, a relação entre o governo belga e o pontífice deteriorou-se ainda mais depois de Francisco, ao sair da Bélgica, ter criticado abertamente as leis de aborto do país, descrevendo médicos que realizam o procedimento como “sicários”.
A Bélgica tem um longo historial de casos de abuso clerical e subsequentes encobrimentos. Em 2010, o bispo de Bruges, Roger Vangheluwe, foi autorizado a retirar-se em silêncio, após admitir ter abusado sexualmente do seu sobrinho durante 13 anos. No entanto, o Papa só o despojou do estado clerical este ano, uma decisão tomada pouco antes da visita papal, mas que alguns críticos consideram tardia.














