Este ano, devem registar-se, pelo menos, 15 milhões de casos de violência doméstica em todo o mundo, em consequência das medidas de restrição da pandemia da covid-19, de acordo com os novos dados da ONU que mostram, essencialmente, um retrato sombrio da vida das mulheres na próxima década.
O Fundo de População da ONU (UNFPA) também calculou que dezenas de milhões de mulheres não terão acesso a contraceptivos modernos este ano, e milhões de meninas sofrerão mutilação genital feminina ou vão casar até 2030.
Um retrato que leva Natalia Kanem, diretora executiva do fundo, a considerar estar diante daquilo a que chama de informações “totalmente calamitosas”. “É uma calamidade e é tão claro que a covid-19 está a aumentar as disparidades e ameaçou os ganhos cuidadosamente obtidos nos últimos anos. Estamos realmente muito preocupados”, sublinhou.
Os números, publicados esta terça-feira pelo UNFPA e os seus parceiros Avenir Health, a Johns Hopkins University nos EUA e a Victoria University, na Austrália, assumem um aumento de 20% na violência durante um período médio de três meses nos 193 Estados-membros da ONU. Sendo que estes números levam em consideração os previsíveis altos níveis de casos sub-notificados.
Os analistas esperam 15 milhões de casos adicionais de violência doméstica a cada três meses, enquanto o bloqueio da pandemia for prolongado. Também estimam que a interrupção dos programas de prevenção à violência por causa da pandemia e o desvio de recursos poderão significar menos terço de casos de violência evitados até 2030.
As previsões destes especialistas apontam que até 44 milhões de mulheres, em 114 países, não vºao conseguir ter acesso a contraceptivos se o bloqueio e as restrições relacionadas com a covid-19 continuarem por três meses e causarem grandes interrupções nos serviços. O que resultaria num milhão de gravidezes indesejadas.
A Federação Internacional de Planeamento Familiar informou que mais de 5 mil clínicas foram fechadas em 64 países e a Marie Stopes International prevê que as restrições da covid-19 nos seus serviços possam significar 3 milhões de gravidezes indesejadas adicionais, 2,7 milhões de abortos inseguros e 11 mil mortes relacionadas à gravidez.
A pandemia também deve “atrapalhar” os esforços para acabar com a Mutilação Genital Feminina (MGF). Os investigadores estimam que a expansão dos programas de prevenção da MGF nos próximos 10 anos se traduzi-se em menos 5,3 milhões de vítimas. Mas este número pode agora ser reduzido em um terço.
Enquanto isso, a interrupção de programas para impedir o casamento infantil resultará em mais 13 milhões de crianças casadas na próxima década.




