O tribunal de Nanterre, em França, vai anunciar esta terça-feira a sua decisão no processo envolvendo a comercialização das águas Perrier, marca do grupo Nestlé. O caso foi iniciado pelo procedimento movido pela associação de defesa do consumidor UFC-Que Choisir, que solicita a suspensão imediata da venda e o recolhimento de todas as garrafas. A associação denunciou “uma vasta fraude aos consumidores”, acusando a Nestlé Waters de ter recorrido a tratamentos de desinfecção proibidos em águas minerais naturais antes da engarrafagem.
Segundo a UFC-Que Choisir, a prática colocaria em causa a naturalidade das águas Perrier, uma vez que, em média, uma água mineral natural é vendida entre cem a trezentas vezes mais cara do que água da torneira, configurando um lucro estimado em mais de 3 mil milhões de euros em quinze anos, de acordo com o relatório da comissão de inquérito do Senado francês, datado de 14 de maio de 2025.
A polémica remonta a janeiro de 2024, quando a Nestlé admitiu ter utilizado tratamentos de desinfecção nas suas águas para garantir a “segurança alimentar”, mantendo, porém, que as águas continuavam “puras na fonte”. Em fevereiro, após novas revelações, a diretora-geral da Nestlé Waters solicitou esclarecimentos sobre os processos de microfiltração utilizados.
Em abril de 2025, um controlo interno identificou 300.000 garrafas consideradas contaminadas por bactérias patogénicas. A Nestlé confirmou que algumas garrafas foram bloqueadas devido a uma anomalia “não patogénica”, rejeitando tratar-se de “contaminação no poço”. Apesar de não se tratar de risco direto para a saúde, a UFC-Que Choisir considera que estes tratamentos ilegais comprometem a rotulagem como água mineral natural, defendendo que a marca perdeu a sua autenticidade.
O processo em curso é de caráter urgente e não visa um julgamento definitivo sobre o fundo da questão, mas sim a obtenção de medidas cautelares. Caso o tribunal aceda ao pedido da UFC-Que Choisir, as garrafas Perrier poderiam ser temporariamente retiradas do mercado francês até à resolução final do caso. Esta decisão instrutória será determinante para o futuro comercial da marca, cuja reputação e volume de vendas podem sofrer impacto imediato.
A associação de consumidores sublinha que a ação procura proteger os direitos dos consumidores face a práticas comerciais potencialmente fraudulentas, nomeadamente pela utilização de tratamentos proibidos, e reforça que a expectativa é de que o tribunal imponha medidas que limitem a circulação das águas enquanto a investigação prossegue.
A decisão de hoje será acompanhada de perto por consumidores, autoridades reguladoras e pelo próprio grupo Nestlé, dado o potencial efeito na confiança dos clientes e nas vendas. O desfecho poderá ainda estabelecer precedentes significativos em França sobre a rotulagem de águas minerais e o cumprimento das normas de segurança alimentar.













