Caso das obras em casa de Luís Neves: Descoberta de materiais de empresa insolvente levanta novas dúvidas

A polémica em torno das obras realizadas numa propriedade da família do ministro da Administração Interna, Luís Neves, em Odemira, ganhou um novo desenvolvimento depois de uma investigação jornalística ter identificado materiais pertencentes a outra empresa do empreiteiro João dos Santos Carvalho, amigo do governante.

Pedro Zagacho Gonçalves

A polémica em torno das obras realizadas numa propriedade da família do ministro da Administração Interna, Luís Neves, em Odemira, ganhou um novo desenvolvimento depois de uma investigação jornalística ter identificado materiais pertencentes a outra empresa do empreiteiro João dos Santos Carvalho, amigo do governante e responsável por intervenções em instalações da Polícia Judiciária. A nova descoberta surge numa altura em que continuam por esclarecer vários aspetos relacionados com os custos, a adjudicação e a documentação das obras realizadas nas propriedades do ministro.

Escolha a Executive Digest como fonte preferida no Google Escolher ›

Segundo a CNN Portugal, durante uma deslocação ao local, os jornalistas encontraram materiais associados à empresa Construções João & Martins, Lda., também pertencente a João dos Santos Carvalho, juntamente com bonés identificativos da mesma sociedade. De acordo com informação anteriormente divulgada pelo Página Um e confirmada pela TVI através da consulta do portal Citius, esta empresa entrou em processo de insolvência, que terminou em janeiro de 2025, após rateio final, no Juízo de Comércio de Vila Nova de Famalicão. A investigação refere ainda que, das 14 sociedades em que o empreiteiro surgiu como fundador, sócio ou gerente ao longo das últimas décadas, pelo menos seis foram declaradas insolventes e outras seis acabaram dissolvidas, liquidadas administrativamente ou encerradas.

As novas informações voltam a colocar sob escrutínio a escolha das empresas ligadas ao empreiteiro para executar obras nas propriedades da família de Luís Neves, sobretudo porque João dos Santos Carvalho foi também responsável por trabalhos avaliados em cerca de dois milhões de euros em edifícios da Polícia Judiciária entre 2020 e 2025, período em que o atual ministro desempenhava funções como diretor nacional daquela força policial. A investigação procura igualmente esclarecer as condições em que essas intervenções privadas foram realizadas e os respetivos encargos financeiros.

Apesar das promessas iniciais de divulgar toda a documentação relacionada com as obras, o gabinete de Luís Neves afirma agora que “a intervenção na propriedade em causa ainda se encontra em curso e, uma vez concluída, será reunida e disponibilizada toda a documentação final que se revele pertinente. Até lá, não serão feitos mais comentários sobre este assunto”. Enquanto essa documentação não for conhecida, permanecem por esclarecer os custos totais da empreitada e as condições em que os trabalhos foram adjudicados.

O caso teve origem numa investigação do Nascer do Sol, que revelou que Luís Neves contratou a empresa Construbarcelos, pertencente ao mesmo empreiteiro, para realizar obras em duas propriedades da sua família em Odemira. A situação levantou dúvidas sobre um eventual conflito de interesses e favorecimento devido à relação de amizade existente entre ambos. O ministro rejeita qualquer irregularidade, assegurando que a maioria dos contratos públicos da Polícia Judiciária foi celebrada antes de conhecer pessoalmente João dos Santos Carvalho e defendendo que todos os procedimentos cumpriram as regras legais. Ainda assim, reconheceu que as obras particulares decorreram sem contrato escrito, justificando essa opção pela relação de confiança existente com o empreiteiro e admitindo que, perante o atual escrutínio público, “hoje faria de maneira diferente”.

Continue a ler após a publicidade
Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.