Caso BES/GES: Ricardo Salgado pediu 2 mil milhões de euros a Passos Coelho para salvar Grupo Espírito Santo

Antigo primeiro-ministro disse esperar que o processo criminal do colapso, em 2014, do Banco Espírito Santo (BES) e Grupo Espírito Santo (GES) termine “sem que a culpa morra solteira”

Revista de Imprensa

Ricardo Salgado quis 2 mil milhões de euros da Caixa Geral de Depósitos para um programa de recapitalização do Grupo Espírito Santo em troca de ativos, frisou esta quarta-feira o ‘Correio da Manhã’, que indicou que o ex-banqueiro apresentou a proposta no verão de 2014 ao então primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho.

“No fundo, havia necessidade de dinheiro fresco”, apontou o ex-primeiro-ministro, ouvido como testemunha, no Juízo Criminal de Lisboa, no âmbito do processo BES, salientando, no entanto, que o plano não tinha “qualquer viabilidade”, uma vez que “não fazia sentido nenhum que um risco do BES pudesse ser imputado à Caixa”.

Passos Coelho, no diálogo com os juízes, recordou ter dito a Ricardo Salgado que “a melhor sugestão que lhe posso dar é que reúna os seus credores mais relevantes e que negoceie com eles uma falência ordenada”, ao que o ex-dono do BES garantiu que dificilmente se sentariam à mesma mesa. “Então isto vai correr mal”, apontou Passos Coelho, que não escondeu ao tribunal ter-se convencido “de que se tratava de um caso de polícia”.

O ex-primeiro-ministro lembrou ainda que Ricardo Salgado manifestou “desconforto” com Carlos Costa, governador do Banco de Portugal na época, que estaria “empenhado” em afastar a família da administração do grupo bancário. “Havia pelo menos um investidor interessado em entrar no capital do banco, mas isso dependeria do esclarecimento sobre a efetividade da garantia soberana”, sublinhou Passos.

À saída, o antigo primeiro-ministro disse esperar que o processo criminal do colapso, em 2014, do Banco Espírito Santo (BES) e Grupo Espírito Santo (GES) termine “sem que a culpa morra solteira”.

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“Saberemos no fim do julgamento o que é que se prova em matéria de gestão do próprio banco. Certamente que houve responsabilidade que há de ser apurada e, como qualquer cidadão interessado, espero que o processo possa concluir sem que a culpa morra solteira”, afirmou o chefe de Governo à data da resolução do BES.

“Não me sinto responsável pelo que se passou no Banco Espírito Santo. Não tinha responsabilidades no Banco Espírito Santo”, sublinhou, sustentando que agiu “de acordo com a interpretação” que fez do que era “o interesse coletivo” e do Estado. “Creio que, […] e é a minha apreciação, quer o Banco de Portugal, no essencial, quer o Governo procederam, em face daquela circunstância, de modo a defender o melhor possível o interesse público”, insistiu.

O processo conta atualmente com 18 arguidos, incluindo o ex-presidente do BES, Ricardo Salgado, de 80 anos e diagnosticado com a doença de Alzheimer.

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Ricardo Salgado responde por cerca de 60 crimes, incluindo um de associação criminosa e vários de corrupção ativa no setor privado e de burla qualificada.

O Ministério Público estima que os atos alegadamente praticados entre 2009 e 2014 pelos 18 arguidos, ex-quadros do BES e de outras entidades do GES, tenham causado prejuízos de 11,8 mil milhões de euros ao banco e ao grupo.

O julgamento começou em 30 de outubro de 2024.

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