Carta aberta ao juízes: Sócrates compara funcionamento do sistema judicial aos encobrimentos da Igreja Católica sobre abusos de menores

No documento, o responsável refere em concreto que o “encobrimento” dos juízes na distribuição do caso Marquês deve ser comparado ao que a Igreja fez relativamente à pedofilia.

Revista de Imprensa

O antigo primeiro-ministro, José Sócrates, escreveu uma carta aberta dirigida ao Conselho Superior da Magistratura, no qual compara funcionamento do sistema judicial aos encobrimentos da Igreja Católica sobre abusos de menores.

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No documento, datado de 29 de dezembro e hoje publicado no ‘Diário de Notícias’ (DN), o responsável refere em concreto que o “encobrimento” dos juízes na distribuição do caso Marquês deve ser comparado ao que a Igreja fez relativamente à pedofilia.

“Há cinco anos, o Conselho defendia que a nova distribuição do Processo Marquês não era necessária e que ela ‘foi manual por não poder ser eletrónica dados os problemas de funcionamento que determinaram o encerramento do Citius em setembro de 2014′”, começa por referir.

Agora, adianta o antigo primeiro-ministro, “reconhece que nada disto era verdade – a distribuição era necessária e o sistema informático naquele tribunal estava a funcionar regularmente”.

“O relatório admite, finalmente, que no dia 9 de setembro de 2014 a distribuição do Processo Marquês foi manipulada e falsificada. Não foi feita por sorteio, não foi feita com a presidência de um juiz, não foi feita de modo a garantir igualdade na distribuição de serviço”, lê-se na carta.

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Segundo Sócrates, durante cinco anos o Conselho Superior de Magistratura defendeu o que agora considera ser uma irregularidade, afirma, sublinhando que o que aconteceu a 9 de setembro de 2014 foi uma “trapaça jurídica com o objetivo de escolher, de forma arbitrária, o juiz do caso”.

“Um juiz conveniente. Um juiz parcial. Um juiz capaz de ordenar a detenção no aeroporto por perigo de fuga quando estava a entrar no País e não a sair; um juiz disponível para colaborar com o festim da violação de segredo de justiça que se seguiria”, escreve o responsável referindo-se a Carlos Alexandre.

Nesse sentido, o responsável refere que ao ler o relatório, a primeira ideia que lhe surge é compará-lo aos primeiros comunicados feitos pela Igreja Católica, a propósito do abuso de menores.

“Ao ler este vosso relatório, a primeira ideia que me vem ao espírito tem que ver com os primeiros comunicados da Igreja Católica a propósito do abuso de menores. A Igreja demorou a aprender. Espero que o sistema judicial não leve tanto tempo a perceber que o encobrimento só agrava as coisas, não as resolve”, conclui.

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