Caos nas Urgências faz disparar queixas de utentes (no público e privado). Obstetrícia é especialidade com mais reclamações

Desde o início do ano, foram apresentadas mais de 2.500 queixas contra entidades de saúde públicas e privadas, com um foco particular nos hospitais e maternidades.

Pedro Zagacho Gonçalves

O Portal da Queixa tem registado um aumento significativo no número de reclamações relacionadas com o atendimento nas urgências hospitalares em Portugal. Desde o início do ano, foram apresentadas mais de 2.500 queixas contra entidades de saúde públicas e privadas, com um foco particular nos hospitais e maternidades. A especialidade de Obstetrícia é a que recebe o maior número de queixas.

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Os utentes relatam problemas recorrentes nas urgências, incluindo demoras excessivas no atendimento, que frequentemente ultrapassam as doze horas, e a falta de assistência adequada. Em alguns casos, foram necessários apelos ao 112 à porta das urgências devido à ausência de atendimento. Estes problemas não são novos, mas a situação parece não ter melhorado, com relatos de desfechos trágicos associados a estas deficiências.

Segundo dados analisados pelo Portal da Queixa, este ano foram registadas 2.593 reclamações relacionadas com prestadores de cuidados de saúde, tanto públicos como privados. O Serviço Nacional de Saúde (SNS) lidera em termos de volume de queixas, com 13,2% do total, seguido pela Saúde CUF, com 10,8% das reclamações. A especialidade de Obstetrícia destaca-se como a mais criticada, responsável por 15% das queixas, enquanto a Pediatria representa 10,6%.

Principais Motivos de Reclamação

Entre os principais motivos das queixas, a demora no atendimento é o mais prevalente, gerando 21% das denúncias feitas este ano. Problemas com o mau atendimento das unidades de saúde surgem em 15,4% das reclamações, e a falta de informação contribui para 10,5% dos casos. As queixas abrangem desde a longas esperas na sala de espera, passando pela incapacidade dos hospitais em responder a casos urgentes, até a falta de condições adequadas para atender o volume de utentes e o fecho inesperado das urgências.

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Vários utentes têm compartilhado experiências negativas no Portal da Queixa. Sara Martins, grávida, denunciou a recusa de atendimento na urgência de Obstetrícia do Centro Hospitalar de Leiria em julho: “Uma grávida com falta de ar, tontura e com infeção respiratória (Covid) a não sentir a criança e recusaram mesmo atender, é uma vergonha este país.”

Outro relato é de Nuno Coelho, que se queixou da demora de nove horas no atendimento do Hospital Professor Doutor Fernando da Fonseca: “Como é possível um atendimento de urgência demorar 9 horas? As urgências estiveram várias horas sem chamar uma única pessoa. Não se entende como são escalados os médicos; este hospital não tem urgências, as pessoas são encaixotadas e aguarda-se que ou desistam ou a sua situação piore para que efetivamente se faça algo.”

O plano de verão para as urgências de obstetrícia e ginecologia, acordado entre o Ministério da Saúde, os diretores clínicos e os presidentes dos conselhos de administração dos hospitais, visava melhorar a situação. No entanto, os maiores constrangimentos ainda se verificam nas regiões de Lisboa e Vale do Tejo, principalmente nas áreas de obstetrícia e pediatria. Em 2022, deficiências neste setor levaram à morte de um bebé no Hospital das Caldas da Rainha. Recentemente, outro caso grave envolveu uma grávida com um aborto espontâneo que também teve a assistência negada no mesmo hospital.

Desde o final de junho, os utentes têm a possibilidade de consultar, através de uma página interativa no portal SNS, os serviços de urgência disponíveis nos próximos sete dias, com o objetivo de facilitar o acesso e a gestão das necessidades de atendimento.

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