Cansaço, maus resultados académicos e distância de casa são fatores de risco para abandono do Ensino Superior, alerta investigadora

De acordo com o estudo, os estudantes mais propensos a deixar o ensino superior são aqueles que enfrentam maiores níveis de exaustão académica e dificuldades na integração social, especialmente os que estão deslocados.

Executive Digest
Julho 30, 2024
18:43

Um recente estudo intitulado Factores que Influenciam o Abandono no Ensino Superior, conduzido pelo Observatório Social da Fundação “la Caixa” e liderado pela investigadora Paula Paulino da Universidade Lusófona, trouxe novas perspetivas sobre os fatores que levam os estudantes a abandonar o ensino superior. A investigação, realizada em 2022, destaca a exaustão académica, as dificuldades de adaptação ao ambiente universitário e a deslocação geográfica como principais indicadores de risco para o abandono escolar.

De acordo com o estudo, os estudantes mais propensos a deixar o ensino superior são aqueles que enfrentam maiores níveis de exaustão académica e dificuldades na integração social, especialmente os que estão deslocados. Paula Paulino, em entrevista ao PÚBLICO, enfatiza a necessidade de fortalecer as redes de acolhimento nas instituições de ensino superior, com foco particular nos estudantes deslocados. “Os programas de mentoria, por exemplo, podem ser cruciais para a adaptação ao ambiente académico e social”, afirmou Paulino.

O estudo não se centrou apenas nas taxas de abandono, mas na intenção dos alunos de desistir do curso, dado que “é um fenómeno multidimensional com grande potencial de intervenção”, explicou Paula Paulino. Durante a pandemia, observou-se um aumento significativo nas taxas de abandono e uma diminuição nas taxas de conclusão dos cursos dentro do prazo estipulado. O estudo atual investiga as intenções de abandono no contexto pós-pandémico.

Perfil dos Estudantes em Risco

Os dados revelam que os estudantes com maiores intenções de abandonar o ensino superior tendem a ser do sexo masculino, deslocados e com responsabilidades de cuidados, como filhos, particularmente na área de Línguas e Humanidades. Além disso, fatores como a exaustão académica, dificuldades de adaptação, baixo sentimento de pertença ao campus e baixo rendimento académico foram identificados como determinantes cruciais.

A amostra do estudo incluiu 1.404 alunos, residentes tanto no continente como nas ilhas, com uma predominância de estudantes do continente. O estudo revelou que os alunos do continente eram mais propensos a desistir do que os das ilhas. A investigação revelou que a intenção de abandonar o ensino superior é mais pronunciada nos ciclos de licenciatura.

Sugestões e Recomendações

Paula Paulino sublinha que as razões para o abandono não se restringem apenas às questões pessoais dos alunos, mas também às características das próprias instituições de ensino. “É necessário promover a adaptação académica”, defende a investigadora. O estudo sugere o fortalecimento dos programas de mentoria, que poderiam ter um impacto positivo nas várias determinantes associadas ao abandono. Paulino ressalta a importância de que estes programas se estendam durante todo o ciclo de estudos.

Ainda há um desafio significativo, pois várias instituições académicas, especialmente as privadas, não fazem parte da rede nacional de mentorias. Paulino sugere que os programas de mentoria devem investir tanto na componente académica quanto na social, para assegurar que os estudantes se sintam aceites e bem integrados. Isto é particularmente crucial para os estudantes deslocados, que precisam construir uma nova rede de contactos sociais.

A amostra de inquiridos é composta predominantemente por estudantes com 25 anos ou menos, solteiros, com uma maioria feminina e residentes em Lisboa ou na região Norte. Aproximadamente metade dos alunos estavam deslocados e viviam em casas partilhadas. Mais de um terço (37,9%) eram trabalhadores-estudantes, e 20% recebiam apoio estatal para os seus estudos. A média das despesas mensais dos inquiridos situou-se em 538 euros.

Paula Paulino expressa a intenção de aprofundar este estudo, com um foco maior nas experiências dos estudantes que manifestam intenções de abandono e numa análise mais detalhada dos programas institucionais de acolhimento e acompanhamento

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