Canhões de água, bibliotecas-refúgio e ar condicionado: a Europa improvisa defesas contra o calor extremo que veio para ficar

Terceira grande vaga de calor deste verão voltou a empurrar temperaturas para perto dos 40 ºC em Portugal, Espanha e França, agravando incêndios, pressionando sistemas de saúde e expondo uma fragilidade crescente

Francisco Laranjeira

Canhões de água em Berlim para refrescar pessoas na rua, bombeiros a levar mangueiras para as ruas de Praga, parisienses a mergulhar no Canal Saint-Martin e espanhóis a procurar abrigo em bibliotecas. A resposta imediata às ondas de calor extremas na Europa já parece saída de um manual de emergência urbana.

Mas o alívio é temporário. A terceira grande vaga de calor deste verão voltou a empurrar temperaturas para perto dos 40 ºC em Portugal, Espanha e França, agravando incêndios, pressionando sistemas de saúde e expondo uma fragilidade crescente: o continente que mais depressa aquece no mundo continua longe de estar preparado para viver com calor extremo.

Segundo o ‘Financial Times’, a ciência mais recente estima que o aquecimento médio global desde a era industrial esteja já próximo de 1,4 ºC. Na Europa, porém, o ritmo é muito superior. Samantha Burgess, vice-diretora do Copernicus, agência europeia de observação da Terra, lembra que o continente está a aquecer a mais do dobro da média global e que os europeus estão expostos a níveis de stress térmico sem precedentes devido à continuação da queima de combustíveis fósseis.

Os números já são pesados. Dados provisórios da saúde pública francesa apontam para cerca de 2.025 mortes em excesso em junho associadas à última vaga de calor. Uma estimativa para todo o continente elevou o total para 20 mil mortes.

A Organização Mundial da Saúde também deixou um aviso claro. Hans Kluge, diretor regional da OMS para a Europa, afirmou que a maior lacuna é o facto de nem metade dos Estados-membros da região europeia terem um plano nacional de ação para calor extremo.

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Bruxelas prepara plano, mas custo será elevado

Todos os Estados-membros da União Europeia têm políticas nacionais de adaptação, além das metas de redução de emissões. A Comissão Europeia prepara agora um plano de resiliência climática para toda a economia, que deverá incluir renovação e desenho de edifícios, adaptação dos transportes e novas respostas ao calor extremo.

A UE também está a mobilizar a maior resposta transfronteiriça de sempre contra incêndios florestais, depois de mais de 200 mil hectares terem ardido em 2025. Quase 800 bombeiros serão posicionados estrategicamente em vários países para apoiar Estados onde os fogos se propaguem.

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Ainda assim, muitas das responsabilidades recaem sobre autoridades nacionais e locais. E é aí que a preparação falha. Cidades como Paris, Bruxelas e Berlim têm edifícios envelhecidos, pouco adaptados ao calor, bairros densamente povoados, pouco acesso a zonas verdes e uma relação difícil com a instalação de ar condicionado.

Na Europa, apenas cerca de um quinto das habitações tem ar condicionado, segundo a Agência Internacional de Energia. A diferença entre países é enorme: cerca de 7% das casas na Alemanha têm ar condicionado, contra quase 80% na Grécia.

O custo da adaptação também será pesado. A Comissão Europeia estima que reforçar a resiliência climática possa custar até 70 mil milhões de euros por ano até 2050. Mas não agir poderá sair ainda mais caro: os danos causados por cheias, secas, incêndios e perda de atividade económica atingiram cerca de 90 mil milhões de euros em 2025.

O calor também é desigual

O calor extremo não atinge todos da mesma forma. Em Bruxelas, as autoridades estimam que as temperaturas noturnas possam ser até 9 ºC mais elevadas em zonas densamente povoadas e desfavorecidas do que nos bairros arborizados do sul da cidade, onde vive parte da elite económica e administrativa da capital belga.

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Ans Persoons, responsável pelo ambiente e clima na cidade de Bruxelas, promete subsídios para melhorar a eficiência energética dos edifícios e desbloquear projetos de natação ao ar livre no canal e em piscinas públicas. Mas essas soluções não deverão estar prontas antes de 2032. “Em Bruxelas, temos muitas piscinas ao ar livre, mas estão todas em jardins privados”, disse ao ‘Financial Times’.

A desigualdade repete-se em várias cidades. Quem tem dinheiro instala climatização, vive em zonas arborizadas ou consegue mudar rotinas. Quem trabalha na rua, mora em apartamentos mal isolados ou depende de transportes e equipamentos públicos fica mais exposto.

Madrid cria refúgios climáticos e Barcelona dá pulseiras a trabalhadores

Espanha conhece bem o calor, mas também está a adaptar-se a uma nova intensidade de vagas extremas e incêndios. Depois dos fogos devastadores do ano passado, o Governo antecipou para janeiro a campanha anual de prevenção de incêndios, que antes começava em junho, e reforçou meios com aviões, helicópteros, drones e veículos todo-o-terreno.

O Ministério da Energia e Ambiente atualizou o plano de adaptação às alterações climáticas e propôs criar mais zonas verdes e sombreadas. Também anunciou 200 milhões de euros de um fundo nacional de eficiência energética para melhorar aquecimento e arrefecimento em escolas.

Em Barcelona, a autarquia está a usar receitas da taxa turística para instalar ar condicionado em centenas de escolas. A cidade começou ainda a distribuir pulseiras de alerta térmico a 1.400 trabalhadores ao ar livre, incluindo jardineiros e funcionários da limpeza urbana.

Várias câmaras municipais estão a transformar bibliotecas, centros desportivos e outros espaços públicos em “refúgios climáticos”. Madrid oferece mesmo sessões gratuitas de cinema, concertos e espetáculos de flamenco em espaços interiores refrigerados, para atrair pessoas sem ar condicionado em casa.

Roma minimiza, mas bairros pobres sofrem mais

Em Itália, a resposta política tem sido mais hesitante. Quando o Ministério da Saúde emitiu alerta vermelho para 18 cidades durante uma vaga de calor recente, Ignazio La Russa, presidente do Senado e cofundador dos Irmãos de Itália, partido da primeira-ministra Giorgia Meloni, minimizou o tema.

“Dizem muitos sobre as alterações climáticas: ‘Meu Deus, vem aí um clima caribenho para a Europa’. Muito bem, mas as Caraíbas vivem com esse clima há muito tempo e sobrevivem. Isso significa que nos vamos habituar ao clima caribenho. Não significa que vamos todos morrer”, afirmou.

Críticos dizem que a retórica se reflete na política. Itália aprovou em 2023 um plano de adaptação às alterações climáticas para ajudar habitantes urbanos a lidar com calor extremo, mas pouco fez para o implementar.

Mariateresa Imparato, da organização ambiental Legambiente, afirma que o plano está “basicamente na gaveta”. Embora muitos centros históricos italianos tenham sido construídos com alguma adaptação ao calor, os bairros mais recentes e pobres estão pior preparados, com falta de árvores, espaços verdes inacessíveis e paragens de transportes sem sombra.

Berlim foge para os lagos

Na Alemanha, Berlim ultrapassou os 41 ºC em junho, um novo recorde para esse mês. Muitos habitantes fugiram para lagos e zonas balneares, mas a capital alemã só aprovou a sua primeira estratégia contra o calor no fim do ano passado, mais de duas décadas depois de Paris ter adotado uma, após a vaga de calor mortal de 2003.

O plano de Berlim inclui plantar árvores, instalar fontes de água potável e criar edifícios mais resistentes ao calor. Mas o mapeamento dos locais frescos continua incompleto.

O problema é também estrutural. O sistema federal alemão, dividido em 16 Estados, dificulta uma estratégia nacional coordenada. Apenas sete Estados têm planos municipais de proteção contra o calor.

O Governo de Friedrich Merz comprometeu-se a investir cerca de 10 mil milhões de euros por ano em resiliência climática durante a próxima década. Mas a implementação prática depende muitas vezes de municípios com falta de pessoal e capacidade técnica. Se a prevenção falhar, alertam especialistas, aumentarão os custos de saúde, a mortalidade, o absentismo laboral e os danos nas infraestruturas.

Paris corre para o ar condicionado

Em França, os 40 ºC registados em junho reacenderam a disputa política sobre a preparação do país. A União Nacional, de extrema-direita, que já teve posições céticas sobre o clima, defende agora um plano nacional massivo para instalar ar condicionado em escolas, hospitais e lares.

O primeiro-ministro Sébastien Lecornu afirmou que o ar condicionado pode fazer parte da solução, mas não deve ser uma “resposta automática” devido ao custo. Ainda assim, ordenou a compra urgente de 100 milhões de euros em unidades de refrigeração e ventiladores para hospitais e pediu aos carteiros que verificassem o estado de pessoas isoladas em casa.

França enfrenta ainda um problema arquitetónico. Muitos edifícios são difíceis de adaptar por causa das regras de preservação histórica, sobretudo em Paris, onde os telhados de zinco e metal do período haussmanniano estão sujeitos a restrições que dificultam até soluções simples como portadas exteriores.

Na vaga de calor recente, a maioria dos idosos morreu em casa e não em lares, ao contrário do que aconteceu em 2003, quando cerca de 15 mil pessoas morreram em França. O Governo usa esse dado para argumentar que houve progressos, mas a nova realidade mostra que o risco se deslocou para pessoas isoladas nas suas habitações.

Zurique usa água fria dos lagos

Na Suíça, onde o aquecimento é ainda mais rápido do que no resto da Europa, as autoridades estão a aproveitar os lagos como resposta ao calor. O derretimento de glaciares e neve expõe mais solo escuro, que absorve calor e acelera o aquecimento.

Genebra está a investir no sistema GeniLac, que retira água do lago a cerca de 45 metros de profundidade, onde a temperatura se mantém perto dos 7 ºC durante todo o ano. A água é usada para arrefecimento direto e aquecimento através de bombas de calor. O sistema poderá custar até 900 milhões de francos suíços, cerca de 960 milhões de euros.

Outras cidades suíças planeiam projetos semelhantes nos lagos de Zurique, Lugano e Lucerna. Zurique já aprovou mais de 300 milhões de francos suíços para o sistema CoolCity no centro da cidade.

Ainda assim, há pressão para aliviar as regras apertadas sobre ar condicionado, tradicionalmente limitado por receios de aumento do consumo elétrico e produção de calor residual. As autoridades de Genebra admitem simplificar procedimentos para instalação residencial, defendendo que o arrefecimento “não deve ser demonizado”.

Atenas reorganiza a vida em torno do calor

Em Atenas, temperaturas acima dos 35 ºC são comuns no verão, mas nos últimos cinco anos os termómetros têm ultrapassado os 40 ºC, com noites cada vez mais quentes devido ao betão que retém calor depois do pôr do sol.

A cidade tem uma responsável dedicada ao calor desde 2020 e classifica as ondas de calor de acordo com o risco para a saúde, usando dados meteorológicos e de mortalidade. Disponibiliza mapas térmicos em tempo real, pontos de arrefecimento, rotas pedonais mais seguras e uma linha telefónica de aconselhamento médico.

Atenas publicou também um guia de sobrevivência que recomenda reorganizar o dia em função do calor: fazer recados nas horas mais frescas, evitar deslocações desnecessárias ao meio-dia, usar chapéu e roupa clara, tomar duches frios e procurar locais frescos.

A cidade conta ainda com quatro satélites lançados em maio para monitorizar incêndios e tem recuperado antigas fontes subterrâneas de água. Mas continua a ser uma capital densa, com pouco espaço verde, tráfego poluente e blocos de apartamentos que funcionam como radiadores urbanos.

A Europa já entrou numa nova fase climática. A discussão deixou de ser apenas sobre reduzir emissões e passou também a ser sobre como viver, trabalhar, dormir, circular e proteger os mais vulneráveis num continente onde o calor extremo deixou de ser exceção.

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