Foi atravessado um novo Rubicão na Europa, sob o choque da guerra na Ucrânia – no último domingo, a Suécia e a Finlândia apresentaram oficialmente o seu pedido para se tornarem membros de pleno direito da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO). Agora, esta evolução é um artifício diplomático – os dois estados já eram parte da Parceria para a Paz da NATO desde 1994 e integravam inúmeras atividades militares e diplomáticas da aliança – ou é mais um passo na polarização estratégica do continente europeu?
Em primeiro lugar, a dupla candidatura é um divisor de águas entre os dois estados nórdicos e a Federação Russa, segundo apontou o ‘The Conversation’. Além disso, também demonstrou a aceleração da recomposição estratégica em ação em todo o hemisfério norte. A principal vítima dessas adesões será, sem dúvida, a autonomia estratégica europeia fora da NATO.
Vistas de Paris, Bruxelas ou Berlim, as posturas estratégicas dos dois estados nórdicos podem parecer semelhantes: historicamente atreladas às suas respetivas neutralidades, essas duas sociedades vivenciaram o início da invasão da Ucrânia, pouco menos de três meses, como um “ponto estratégico despertador”. Para a Suécia, a neutralidade é muito antiga, deliberadamente escolhida, e contribuiu para o seu prestígio internacional. Procurado em 1812 pelo ex-marechal do Império Francês, Jean-Baptiste Bernadotte, que se tornou rei da Suécia e da Noruega sob o nome de Carlos XIV (1818-1844) e procurou impedir que o reino fosse alistado de um lado ou outro nas guerras napoleónicas.
Antiga grande potência no século XVII, a Suécia tinha uma forte tradição militar, um desejo de dominação regional repetidamente reivindicado e disputas com vários estados da região do Báltico e da Europa Oriental. A neutralidade em tempo de guerra permitiu que a Suécia alcançasse uma revolução industrial e depois um desenvolvimento económico notável durante dois séculos, resguardada dos conflitos europeus e depois globalmente. Assim, o pacifismo tornou-se uma marca registada da Suécia.
Apresentar a sua candidatura à NATO é, para a Suécia, uma cesura estratégica: a partir de agora, a Suécia pode voltar a ser parte de um conflito armado dentro da NATO. O famoso artigo 5º do tratado prevê, de facto, assistência automática em caso de agressão por parte de outro membro da aliança. Embora um ataque russo à Suécia ainda seja improvável hoje, existem pontos de discórdia significativos no Báltico – onde os submarinos russos operam – e no espaço ártico.
Para a Finlândia, as apostas são muito diferentes. Antigo território do império czarista durante o século XIX, o estado só adquiriu a sua independência graças à Revolução Russa de 1917. E as relações com a URSS sempre foram particularmente tumultuosas. De facto, após as guerras de inverno (1939-1940) e depois as guerras de continuação (1941-1945) com a URSS, o jovem estado finlandês perdeu tanto um território economicamente e culturalmente essencial, a Carélia, mas também a possibilidade de manter uma política externa independente.
Na Finlândia, a neutralidade é sofrida e resultou de uma derrota contra o grande vizinho. Também é vivenciado como uma humilhação prolongada por muitos finlandeses, para quem a “finlandização” é tudo menos uma questão de orgulho nacional. O contraste com a Suécia, que escolheu a neutralidade como condição do seu sucesso económico, é evidente. A Finlândia realmente quebrou um tabu – o país partilha 1.300 km de fronteiras com a Rússia e é particularmente vulnerável a incursões aéreas, navais e até terrestres da Rússia. Em Helsínquia, o dilema era quase existencial: ou mantinha essa ‘finlandização’ imposta pela URSS na esperança de uma certa segurança face a uma potência militar ativa à sua porta ou beneficiar do ‘seguro de vida’ do artigo 5º sob o risco de provocar a Rússia.
Para além das diferenças significativas entre a Suécia e a Finlândia, as respetivas candidaturas à NATO marcam, para a região do Báltico, a entrada num período de tensões crescentes, rearmamento acelerado e instabilidade. Com efeito, esta candidatura pode clarificar ou radicalizar o acordo estratégico do Báltico, eliminando uma zona tampão marcada pela neutralidade numa parceria livre com a NATO. Todos estes desenvolvimentos vão mudar a política interna na Suécia e na Finlândia. Mas, além disso, certamente vai radicalizar a posição russa na região.
A reação russa é ainda uma incógnita. Desde a II Guerra Mundial, os dois estados nórdicos foram considerados não ameaçadores por Moscovo devido à sua neutralidade. Consequentemente, bastavam ‘pequenos’ testes de soberania – violações do espaço aéreo ou do espaço marítimo – para manter a pressão a baixo custo. A partir de agora, a Rússia sem dúvida vai reforçar o seu aparato militar num espaço muito vasto e fortemente armado: para os russos, preocupados com as fronteiras oeste e sul, significou o fim do ‘conforto’ militar no norte.
A longo prazo, a postura estratégica de Moscovo vai modificar-se: em primeiro lugar, a Rússia considerar-se-á diretamente sitiada e ameaçada em todas as zonas setentrionais: no Mar Báltico, mas também no Atlântico Norte e no Ártico. Portanto, aumentou o risco de iniciativas agressivas na área em todas as formas – naval, cibernética, aérea e económica. Fora da zona, vai tentar lutar contra o efeito dominó dessas candidaturas à nato. Porque o estabelecimento de zonas tampão era um dos seus objetivos estratégicos. Assim, se as candidaturas nórdicas forem aceites e prosperarem, poderão ser imitadas por muitos outros Estados que vão a proteção da Aliança: a Geórgia, a Moldávia e, claro, a Ucrânia que não vão deixar de reavaliar as respetivas candidaturas à luz deste precedente.
Essas candidaturas certamente são um revés para os estrategistas russos. Durante duas décadas, dentro do Conselho NATO-UE e desde 2014 contra ele, o principal caminho da Rússia na Europa foi impossibilitar novos alargamentos da Aliança Atlântica, após a sua extensão em 1999 e 2004 às antigas democracias populares (Polónia, Hungria, Eslováquia e República Checa) e as antigas Repúblicas Socialistas Soviéticas do Báltico. Ao desencadear a operação militar contra a Ucrânia, a Rússia obteve um efeito de reação estritamente contrário aos seus objetivos cardinais.
Estas candidaturas nacionais terão efeitos continentais, a curto e longo prazo. As candidaturas de Suécia e Finlândia demonstram a falta de confiança que têm na assistência mútua entre os Estados-membros da União Europeia, prevista do artigo 42º do Tratado da União Europeia. Assim, a verdadeira ajuda está no artigo 5º da NATO. Mas também são sinal de ceticismo em relação ao esforço europeu no campo da segurança – são os Estados-membros da NATO, mas fora da União Europeia, os mais ativos dentro da aliança após as candidaturas. A Turquia e Reino Unido foram rápidas a pronunciar-se, sinal do objetivo de recuperar um papel na Europa que as difíceis relações com a União Europeia lhes negaram.











