Canais vão engolir a mitica cidade: Veneza vai “ser perdida” sem ação rápida face à subida do nível do mar, alerta estudo

Veneza poderá “acabar por ser perdida” se não forem tomadas medidas rápidas para travar os impactos das inundações associadas às alterações climáticas. O alerta consta de um estudo publicado esta quinta-feira na revista científica Scientific Reports.

Pedro Zagacho Gonçalves

Veneza poderá “acabar por ser perdida” se não forem tomadas medidas rápidas para travar os impactos das inundações associadas às alterações climáticas. O alerta consta de um estudo publicado esta quinta-feira na revista científica Scientific Reports, que conclui que as atuais defesas da cidade italiana deverão enfrentar “limites difíceis” ainda durante este século.

A investigação sustenta que, sem adaptação estrutural, a histórica cidade da lagoa veneziana corre o risco de desaparecer progressivamente sob o efeito da subida do nível do mar. O trabalho é particularmente crítico em relação aos esforços internacionais para reduzir emissões de gases com efeito de estufa, classificando-os como “grosseiramente insuficientes”.

“É essencial contemplar transformações radicais para a cidade de Veneza (…) que, na ausência de adaptação, acabaria por ser perdida”, defendem os autores no artigo científico.

Apesar da urgência, os investigadores sublinham que não há uma solução perfeita. O estudo analisou quatro estratégias potenciais para proteger Veneza ao longo dos próximos 200 anos: barreiras móveis, diques circulares, encerramento permanente da lagoa veneziana e relocalização definitiva da cidade.

Segundo Piero Lionello, autor principal do estudo e professor na Universidade do Salento, “não existe uma opção que maximize todos os objetivos em simultâneo”. Cada alternativa, explicou, “preserva alguns aspetos de Veneza — o tecido urbano, o ecossistema, a economia ou a segurança — mas compromete outros”.

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Esta ausência de solução “ótima” coloca decisores políticos e autoridades perante escolhas complexas, que poderão implicar impactos significativos na identidade histórica, no funcionamento económico e no papel portuário da cidade.

Subida do mar pode atingir 1,8 metros no pior cenário
Os cenários traçados pelos cientistas variam consoante a evolução das emissões globais. Caso o mundo consiga reduzir rapidamente os gases com efeito de estufa, o nível do mar em Veneza poderá subir cerca de 0,42 metros até 2100, face ao início do século. No pior cenário, essa subida poderá atingir 1,8 metros.

Atualmente, Veneza dispõe de um sistema de 78 barreiras móveis contra inundações. Contudo, de acordo com Lionello, este mecanismo poderá tornar-se “inadequado” caso a subida ultrapasse os 0,5 metros, se não forem implementadas adaptações adicionais.

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Entre as medidas complementares analisadas está a elevação gradual da lagoa e da própria cidade, através da injeção de água do mar em aquíferos profundos sob Veneza. Com esse reforço, o sistema poderá manter-se eficaz até uma subida de 1,25 metros.

Sem essas intervenções, e caso o nível do mar ultrapasse os 0,5 metros, poderão ser necessárias soluções mais drásticas, como diques permanentes ou o encerramento da lagoa com barragens fixas. Tal cenário implicaria isolar Veneza do mar, podendo significar o fim ou uma redução substancial do seu papel como porto.

Planeamento antecipado é crucial
Os investigadores alertam que obras de grande escala, como a construção de barreiras permanentes, podem demorar entre 30 e 50 anos a concluir. Por isso, defendem que o planeamento deve começar com antecedência.

“Se o planeamento começar demasiado tarde, a próxima linha de defesa pode não estar pronta quando for necessária. O risco não é apenas físico, mas também institucional e relacionado com o calendário”, advertiu Lionello.

Inundações extremas tornaram-se mais frequentes
Nos últimos 150 anos, Veneza registou 28 episódios de inundação extrema que submergiram cerca de 60% da cidade, sendo que 18 desses eventos ocorreram já neste século.

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Para Tommaso Alberti, investigador do Istituto Nazionale di Geofisica e Vulcanologia, é necessária “intervenção e planeamento rápidos” para salvaguardar a cidade.

O especialista destaca que a “combinação da subida do nível do mar, da subsidência do solo e de tempestades mais energéticas” faz com que níveis de água outrora considerados excecionais se tornem cada vez mais prováveis, podendo ultrapassar os limites das atuais barreiras ainda neste século.

“As infraestruturas concebidas para o clima do passado estão cada vez mais desalinhadas com os riscos presentes e futuros”, sublinhou.

Mediterrâneo é um ponto crítico das alterações climáticas
Alberti acrescenta que o Mediterrâneo se está a transformar num “ponto crítico de risco acelerado” no contexto das alterações climáticas. Fenómenos como a tradicional acqua alta — as cheias periódicas que afetam Veneza — estão a ocorrer “fora da sua época tradicional e com maior intensidade”.

O investigador deixa um aviso claro: “Sem reduções rápidas das emissões, juntamente com uma adaptação urgente, a escala e a frequência dos impactos ultrapassarão a nossa capacidade de os gerir.”

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