Calor é o novo serial killer da Europa: Portugal regista 136 mortes por milhão de habitantes, revela estudo

A equipa científica salientou que a vulnerabilidade ao calor das sociedades europeias diminuiu progressivamente ao longo deste século e estimou que, sem estes processos de adaptação das sociedades, o peso da mortalidade relacionada com o calor durante o ano passado teria sido 80% maior

Francisco Laranjeira

O calor extremo tornou-se o novo ‘serial killer’ da Europa: prova disso são os dramáticos número de mortes relacionadas com as altas temperaturas que têm ocorrido nos últimos verões. Um estudo publicado na revista científica ‘Nature Medicine’ quantificou quantas pessoas morreram no Velho Continente em consequência do calor extremo – de acordo com os investigadores do Instituto de Saúde Global de Barcelona (ISGlobal), foram mais de 47 mil pessoas.

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A equipa científica salientou que a vulnerabilidade ao calor das sociedades europeias diminuiu progressivamente ao longo deste século e estimou que, sem estes processos de adaptação das sociedades, o peso da mortalidade relacionada com o calor durante o ano passado teria sido 80% maior.

O estudo reproduziu a metodologia utilizada no ano passado noutro trabalho publicado na ‘Nature Medicine’, que estimou que o calor causou mais de 60 mil mortes durante o verão de 2022, o que representou a maior carga de mortalidade relacionada com o calor na última década.

Ao contrário do verão de 2022, que foi caracterizado por temperaturas extremas persistentes na parte central da estação – de meados de julho a meados de agosto -, 2023 não registou grandes anomalias térmicas durante as mesmas semanas. No entanto, dois episódios de altas temperaturas em meados de julho e no final de agosto teriam sido responsáveis ​por mais de 57% da mortalidade global estimada, com mais de 27 mil mortes.

Os resultados de 2023 mostraram um total de 47.690 mortes estimadas no conjunto dos 35 países, das quais 47.312 teriam ocorrido no período mais quente do ano (entre 29 de maio e 1 de outubro). Ao ter em conta a população, os países com as taxas de mortalidade relacionadas com o calor mais elevadas situavam-se no sul da Europa, nomeadamente Grécia (393 mortes por milhão), Bulgária (229 mortes por milhão), Itália (209 mortes por milhão), Espanha (175 mortes por milhão), Chipre (167 mortes por milhão) e Portugal (136 mortes por milhão).

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Em linha com estudos anteriores, os dados mostraram uma maior vulnerabilidade das mulheres e dos idosos. Especificamente, depois de ter em conta a população, a taxa de mortalidade relacionada com o calor foi 55% mais elevada nas mulheres do que nos homens, e 768% mais elevada nas pessoas com mais de 80 anos do que nas pessoas entre 65 e 79 anos.

O estudo alertou ainda que estes números podem subestimar o verdadeiro peso da mortalidade relacionada com o calor – devido à falta de disponibilidade de registos diários e homogéneos de mortalidade durante o ano de 2023, foi necessário utilizar contagens semanais de óbitos do Eurostat.

“Os nossos resultados mostram como ocorreram processos de adaptação da sociedade às altas temperaturas durante o século atual, que reduziram drasticamente a vulnerabilidade ao calor e a carga de mortalidade dos últimos verões, especialmente entre os idosos”, salientou Elisa Gallo, investigadora do ISGlobal e primeira autora do estudo.

“Por exemplo, vemos que desde 2000, a temperatura de mortalidade mínima – a temperatura ótima com o menor risco de mortalidade – tem vindo a aquecer gradualmente em média no continente, passando de 15 graus em 2000-2004 para 17,7 graus em 2015-2019 Isto indica que somos menos vulneráveis ​​ao calor do que éramos no início do século, provavelmente como resultado do progresso socioeconómico geral, das melhorias no comportamento individual e das medidas de saúde pública, tais como os planos de prevenção do calor implementados após o verão recorde de 2003”, concluiu Elisa Gallo.

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