Uma estrutura de aço, concebida para resistir ao tempo e ao colapso, vai ser instalada na costa oeste da Tasmânia, na Austrália, com um objetivo invulgar: registar “cada passo” da humanidade em direção a uma eventual catástrofe climática.
O projeto chama-se Earth’s Black Box, ou “Caixa Negra” da Terra, e deverá ficar operacional até ao final do ano, se o calendário avançar como previsto. A estrutura será colocada num antigo aeroporto desativado, numa zona de paisagem granítica da Tasmânia, ilha situada a cerca de 240 quilómetros da Austrália continental.
A ideia inspira-se nas caixas negras dos aviões, dispositivos quase indestrutíveis que guardam dados de voo e ajudam a reconstruir acidentes. Neste caso, o planeta é o avião e a humanidade é o piloto.
Uma estrutura de aço para guardar dados sobre o clima
A “Caixa Negra” da Terra terá aproximadamente o tamanho de um autocarro urbano e será construída com aço de cerca de 7,6 centímetros de espessura. A estrutura será rodeada por painéis de betão e coberta por um telhado de vidro resistente, com painéis solares instalados por baixo.
O objetivo é proteger e alimentar o sistema de registo instalado no interior. O dispositivo vai recolher centenas de indicadores climáticos e informação contextual, incluindo temperaturas, subida do nível do mar, discursos políticos e relatórios sobre clima.
Rob Beamish, fundador e diretor criativo da agência de comunicação ambiental Rouser Lab, uma das organizações envolvidas no projeto, descreve a estrutura como um dispositivo de registo de dados “essencialmente indestrutível” e autónomo em termos energéticos.
No curto prazo, a caixa deverá comunicar dados atuais e conclusões ao público. A informação poderá ser consultada online e os visitantes do local poderão ligar-se à estrutura através dos seus telemóveis.
Um registo para futuras civilizações
A ambição de longo prazo é mais sombria. Se as alterações climáticas conduzirem ao colapso da humanidade, a Earth’s Black Box pretende deixar um registo para eventuais civilizações futuras.
Segundo o site do projeto, a estrutura deverá fornecer um relato imparcial dos acontecimentos que levaram ao declínio do planeta.
A iniciativa combina instalação artística, arquivo de dados, cápsula do tempo e alerta público. Além da Rouser Lab, o projeto envolve também a agência Clemenger e o coletivo artístico Glue Society.
Para os responsáveis, a “Caixa Negra” pretende funcionar como chamada de atenção para a crise climática, obrigando o público a confrontar-se com os riscos acumulados.
Projeto foi anunciado em 2021, mas ainda não arrancou no terreno
A Earth’s Black Box foi apresentada em 2021, durante a COP26, a conferência das Nações Unidas sobre clima realizada em Glasgow. Na altura, o projeto gerou forte atenção mediática e chegou a ser referido por Stephen Colbert no programa Late Show.
Inicialmente, os promotores apontavam para a conclusão da estrutura em 2022. Quatro anos depois, a construção ainda não começou no local, embora os componentes estejam a ser montados.
Rob Beamish reconhece que se trata de um projeto ambicioso, com exigências de desenho, engenharia, aprovações de construção e financiamento. A maior parte dos fundos tem vindo de donativos. Apesar dos atrasos, a expectativa é que a estrutura possa estar operacional em dezembro.
Tasmânia escolhida pela estabilidade geológica e política
A localização na Tasmânia foi escolhida por razões de estabilidade. Shane Pitt, presidente da região de West Coast, afirmou que a ilha é uma das zonas mais estáveis do mundo do ponto de vista geológico e político.
O responsável local acredita também que o projeto poderá atrair visitantes a esta área remota da ilha, onde vivem cerca de 4.600 pessoas.
A estrutura ficará instalada numa região marcada por paisagens naturais e isolamento, características que reforçam a ideia de permanência e preservação associada ao projeto.
Cientistas questionam impacto do medo na ação climática
Apesar da força simbólica da iniciativa, alguns especialistas questionam se o projeto terá capacidade real para provocar mudanças duradouras.
Katharine Hayhoe, cientista atmosférica da Texas Tech University e cientista-chefe da Nature Conservancy, considera que a caixa poderá funcionar como um complemento aos registos já preservados pela própria Terra.
O planeta guarda a sua história climática em elementos naturais como anéis de árvores, núcleos de gelo e corais, que permitem reconstruir o clima ao longo de milhares de anos. A “Caixa Negra” poderá ajudar a conservar informação em escalas temporais mais precisas.
Ainda assim, Hayhoe discorda da ideia de que o medo seja suficiente para gerar ação climática. Para a cientista, o medo pode aumentar a consciência e a partilha de informação, mas não leva necessariamente as pessoas a agir. Sem saberem o que fazer, tenderão a não fazer nada.
Anthony Leiserowitz, professor de comunicação climática na Yale School of Environment, também alerta para os limites do medo. Segundo o especialista, essa emoção funciona perante ameaças imediatas, mas é menos eficaz em problemas crónicos e progressivos, como as alterações climáticas.
Leiserowitz acrescenta que, mesmo que o projeto consiga gerar atenção, seria necessário manter narrativas repetidas ao longo de anos para permanecer na memória pública.
“Ainda há esperança” para evitar o pior
Os promotores da Earth’s Black Box assumem que a estrutura pretende provocar inquietação, mas também transmitir uma mensagem de esperança.
Rob Beamish defende que o medo pode ser um forte motivador para a ação climática, mas sublinha que o “avião ainda está no ar”. Ou seja, ainda existe margem para evitar os piores cenários das alterações climáticas.
Para o responsável, a função principal da caixa é forçar a realidade climática e o risco existencial das alterações climáticas a entrar na consciência pública.
A Earth’s Black Box nasce, assim, como um aviso material e permanente: se a humanidade falhar, ficará pelo menos um registo do caminho que seguiu até à crise.














