O presidente do Fórum Cabo-verdiano da Sociedade Civil (FÓRUM CV), Dionísio Simões Pereira, disse hoje que seria desejável mais diálogo entre forças políticas, apesar da vitória por maioria absoluta do PAICV, numa análise às eleições legislativas de domingo.
“Era desejável que houvesse mais diálogo” e “condições objetivas que pudessem forçar a isso”, referiu à Lusa, questionando se os novos detentores de poder vão retaliar pelo que sofreram na oposição, como já fez o MpD anteriormente, ou se Francisco Carvalho, presidente do Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV) e futuro primeiro-ministro, vai dar mais espaço à concertação.
No âmbito da ação política, o novo Governo terá de lidar “com compromissos e promessas demasiado ousadas”, feitas em campanha, “muito exigentes” para levar a prática.
O analista apontou os exemplos da gratuitidade da universidade pública e das reduções nos custos para os utentes de serviços de saúde, transportes marítimos e aéreos.
Do outro lado, na declaração de derrota do primeiro-ministro e presidente do Movimento pela Democracia (MpD), Ulisses Correia e Silva, sentiu-se “alguma mágoa em relação aos seus pares, ainda que dizendo não querer apontar o dedo a ninguém”.
Nas disputas seguintes, para liderar o partido, Dionísio Simões Pereira aponta para quem já deu a cara por mudanças internas, como os deputados Paulo Veiga e Orlando Dias, mas questiona se figuras mais antigas, “que estiveram na primeira e segunda cisões do MpD”, como Eurico Monteiro ou Jacinto Santos, poderão também reaparecer.
O Mpd “vai passar por uma situação em que nunca esteve”, em que as únicas formas de exercício de poder são sete câmaras municipais, face a uma maioria de 15 autarquias do PAICV, sem estar no Governo, nem na presidência.
Ou seja, “está tudo amarelado”, disse, numa alusão à cor do PAICV.
Cabo Verde volta a realizar eleições a 15 de novembro para escolher o Presidente da República e, segundo o analista, parece “difícil” encontrar um potencial “candidato do MpD para disputar a presidência contra José Maria Neves”, atual presidente, antigo líder do PAICV e primeiro-ministro entre 2001 e 2016.
“A menos que as pessoas optem por se posicionar já, na perspetiva de, daqui a cinco anos, poderem ser favoritos, estou a antever um cenário parecido com o que aconteceu com o primeiro presidente eleito em democracia, António Mascarenhas Monteiro, que, na corrida para sua própria sucessão, acabou a ir sozinho”, recordou.
Por outro lado, disse que resta saber se no novo PAICV de Francisco Carvalho está tudo alinhado relativamente a José Maria Neves ou se há “alguma outra intenção de alguém próximo da atual liderança – e, aí, o jogo pode ser baralhado”.
Num balanço do processo eleitoral, Dionísio Simões Pereira lamentou as fragilidades da sociedade civil, com denúncias de distribuição de cestas básicas (mercearias) para compra de votos a assumirem protagonismo no dia anterior à votação.
“Isto é revelador das fragilidades desta democracia cabo-verdiana”, referiu.
O dirigente considera que a sociedade civil “continua muito amorfa, muito apagada no acompanhamento dos atos de exercício do poder político. Há uma longa trajetória a ser feita”, disse, e a elevada taxa de abstenção – que se deverá situar num nível recorde acima de 50% – adensa o pessimismo.
Segundo referiu, há atualmente uma tentativa de revitalização “da plataforma das ONG”.
“Vamos ver se, em conjunto connosco [Fórum CV], será possível fazer uma frente comum, criar mecanismos de monitorização, de seguimento e de avaliação do grau de implementação das promessas que são feitas” em campanha eleitoral, concluiu.
O PAICV anunciou ter vencido as eleições com maioria absoluta, elegendo 37 dos 72 deputados, enquanto o MpD assumiu que vai passar a ser a principal força da oposição.
A União Cabo-verdiana Independente e Democrática (UCID) deverá eleger dois deputados.
Ao cabo de 24 horas após o fecho das urnas, o portal oficial (eleicoes.cv) ainda mantém quatro deputados por distribuir, dependentes dos votos da diáspora, cabendo, por enquanto, 35 lugares do parlamento ao PAICV, 31 ao MpD e dois à UCID.







