Os cabelos brancos podem não ser apenas um sinal de envelhecimento: novas evidências científicas sugerem que o branqueamento capilar pode funcionar como um mecanismo natural de proteção contra o cancro. A conclusão surge de um estudo da Universidade de Tóquio, publicado na ‘Nature Cell Biology’, que analisa de forma aprofundada o comportamento das células estaminais responsáveis pela pigmentação do cabelo quando o ADN sofre danos.
O processo de perda de cor resulta da falha das células que produzem pigmento, fenómeno associado ao envelhecimento, ao stress excessivo ou a doença. Estas células estaminais — conhecidas como melanocíticas ou McSCs — residem na raiz do folículo e têm capacidade de regeneração cíclica, mas deixam de funcionar quando o ADN é danificado.
Há dois anos, investigação da Universidade de Nova Iorque já tinha revelado um “bloqueio” destas células que impedia a pigmentação natural, segundo resultados divulgados na revista ‘Cell’. Agora, a equipa liderada por Emi Nishimura e Yasuaki Mohri avança mais um passo ao mostrar que o branqueamento pode ser uma resposta biológica destinada a eliminar células potencialmente perigosas.
Nishimura explica que a eliminação de McSCs com ADN danificado gera cabelos brancos, levantando a hipótese de que este fenómeno possa constituir uma barreira protetora contra o melanoma. A nova investigação demonstra precisamente essa relação antagónica entre branqueamento capilar e desenvolvimento tumoral.
O papel do stress celular e dos sinais do microambiente
Segundo o estudo, quando as McSCs detetam quebras de dupla fita no ADN, iniciam um processo de diferenciação associado à senescência — designado “diferenciação seno” — que conduz ao desaparecimento dessas células e, consequentemente, ao embranquecimento dos fios. Esta via protetora depende da ativação do eixo p53-p21.
Contudo, a resposta altera-se quando as células são expostas a determinados carcinogéneos, como radiação UVB ou compostos químicos específicos. Nesses casos, em vez de serem eliminadas, as McSCs mantêm a capacidade de autorrenovação e expandem-se clonalmente, um comportamento potenciado pelo ligante KIT presente no nicho celular e na epiderme. A ausência da via senolítica abre caminho ao desenvolvimento de melanoma.
Uma nova visão sobre envelhecimento e cancro
Eduardo Nagore, da Academia Espanhola de Dermatologia e Venereologia, citado pelo jornal ‘El Mundo’, destaca a relevância do estudo, que “identifica os circuitos moleculares que governam o destino das células pigmentares” e estabelece uma ligação conceptual inédita entre envelhecimento dos tecidos e carcinogénese.
A própria Nishimura sublinha que o estudo não implica que o cabelo grisalho seja, por si só, protetor, mas revela que o embranquecimento pode ser o resultado de um programa biológico que elimina células danificadas. Pelo contrário, a repigmentação inesperada de cabelos brancos pode constituir um sinal de alerta, uma vez que pode refletir ativação descontrolada das células estaminais.
A investigadora recomenda prudência perante estratégias antienvelhecimento sem validação científica e lembra que só com mais investigação será possível perceber se a “senólise natural” ocorre noutros tecidos do corpo.
A equipa japonesa pretende agora investigar se este mecanismo protetor se repete noutros sistemas orgânicos. Outra dúvida é o motivo pelo qual, apesar de evitarem a diferenciação senolítica quando expostas a carcinogéneos, as McSCs não originam imediatamente tumores — um indício de que o melanoma requer etapas adicionais para se desenvolver.














