Os bombardeamentos russos feitos contra várias cidades ucranianas, incluindo a capital, Kiev, esta segunda-feira, que deixaram um rasto de destruição e morte, com pelo menos 19 vítimas mortais e mais de 100 feridos, lançaram o medo entre a população de uma escalada no conflito. Perante as ameaças reiteradas de Putin, que já garantiu a possibilidade de usar armas nucleares no conflito, há muitos ucranianos que já se estão a preparara para a eventualidade de um ataque nuclear devastador.
Oleksandr Kadet mostrou ao The New York Times que já tem um ‘bunker improvisado’ pronto: no barracão que tem no jardim está montada uma sala subterrânea, a mais de dois metros de profundidade, com uma escotilha de cimento, que o residente em Kiev espera que seja suficiente para o proteger a ele e à mulher.
Nos últimos dias, ele e a mulher têm estado a recolher bens essenciais para abastecer o bunker – anteriormente era um poço -, com água engarrafada, comida e enlatados, rádios, baterias e ‘power banks’.
“Estamos mais ansiosos agora, especialmente depois dos ataques. Mas acho que, no caso de uma explosão nuclear, poderemos sobreviver se ficarmos no nosso abrigo por alguns dias”, afirma Oleksandr.
Os medos surgiram logo após a destruição parcial da ponte de Kerch, que liga a Rússia à Península da Crimeia (anexada em 2014), por um carro-bomba que explodiu. Putin classificou o ato como “terrorismo” e a retaliação fez-se sentir depois.
O porta-voz do Kremlin veio depois acalmar os receios de uma retaliação nuclear, defendendo que o ataque à ponte não permitia tal resposta perante a doutrina da defesa russa. Ainda assim, Putin já tinha avisado, em setembro, que iria “usar todos os meios à disposição para proteger a Rússia e o seu povo”, no caso de território ocupado por russos ser ameaçado. A ameaça de uso de armas nucleares ficou bem patente: “Isto não é bluff”, afirmou Putin.
Em Kiev vive-se com medo, e Oleksandr não é o único a preparar-se para o pior. “Tenho um receio muito real sobre como os russos vão responder a tudo isto. Já me senti mais segura aqui, mas agora sinto que algo vai acontecer em Kiev”, conta Krystina Gevorkova, que andava com uma amiga a tratar de recolher bens essenciais num supermercado.
O governo local também admite a possibilidade de um ataque nuclear e a Câmara Municipal de Kiev já garantiu a distribuição de comprimidos de iodeto de potássio (que impede a absorção de iodo radioativo pela tiroide em caso de radiação nuclear), também disponibilizando o medicamento nas farmácias da cidade “com base em recomendações médicas”.
Nas escolas também há medidas a serem tomadas. Há pais que já foram avisados pelos agrupamentos escolares para prepararem kits de emergência para as crianças levarem para a escola. Nadiia Stelmakh, que tem uma loja, conta que uma mãe já lhe apareceu com uma lista da escola que pedia uma série de itens, incluindo luvas de látex, um poncho, botas, lenços, toalhetes e uma lanterna. “As pessoas estão mesmo preocupadas. Eu também tenho uma mochila de emergência, mas acho que se houver uma ameaça nuclear iminentes, não teremos tempo de fugir”, termina a lojista.



